Dostoiévski é a alma humana

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024 às 15:58
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Retrato de Fiódor Dostoiévski, em 1860. – Foto: Reprodução/ Internet

*Por Henrique Matthiesen

Fiódor Dostoiévski, um dos gigantes da literatura universal, explora as profundezas da alma humana em suas reflexões, investigando até onde é possível chegar e quais são os limites dos tormentos da alma. Em sua obra-prima “Crime e Castigo” – um clássico literário – o autor apresenta inúmeros personagens com personalidades singulares, oferecendo reflexões provocativas, perturbadoras e envolventes. A trama do livro quase se confunde com sua biografia, especialmente durante o período de sua prisão na Sibéria.

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Dostoiévski constrói uma narrativa envolvente em meio à edificação social marcada pela injustiça e opressão. Seu protagonista, Raskólnikov vive semiescravizado e protesta cometendo um duplo homicídio. O autor mergulha nas entranhas mais profundas da reflexão, explorando temas como culpabilidade, injustiça, moralidade, sonhos e redenção, revelando diversas nuances da alma humana.

No livro “O Idiota”, Dostoiévski cria a junção da figura de Dom Quixote com Jesus Cristo. O enredo traz o Príncipe Míchkin (personagem principal), um homem positivamente bom, mas confrontado pela subversão entre seus ideais cristãos e as realidades corruptas da sociedade. Na obra, o autor eleva de forma sublime a humanidade do príncipe Michikin. Há o confronto entre a bondade e a maldade, entre a soberba arrogante e a ação pudica despretensiosa. Incompreendido e insultado, o Príncipe resiste, não muda sua postura, permanece imune às baixezas das almas mundanas, sendo luz em meio à escuridão e à mediocridade, que permeiam o enredo.

Em “Os Irmãos Karamazov”, para muitos a obra mais sublime e importante de Dostoiévski, vem com a história de Dmítri, Ivan e Aliôcha, filhos de Fiódor Karamázov, cada um com individualidades distintas. Aliôcha, o mais novo, busca a vida monástica, enquanto Ivan, o do meio, é um cético intelectual em inalterável debate sobre a existência de Deus. Ambos se preocupam com o relacionamento conturbado de seu pai com Dmítri, o filho mais velho, emotivo e apaixonado. Dmítri, envolvido em um triângulo amoroso com seu pai e Grúchenka, é acusado injustamente da morte do pai. O verdadeiro assassino, Smerdiakóv, confessa a Ivan, inspirado por suas filosofias, mas se mata. No julgamento, Ivan sofre um colapso, Dmítri é condenado injustamente à prisão, apesar de sua inocência.

A grande questão da inquietude, da provocação, da reflexão é a perturbadora pergunta: Se Deus não existisse, tudo seria permitido? Dentre as obras citadas de Dostoiévski há um inequívoco e denso mergulho na alma humana. O autor, de forma magistral, traz as peculiaridades da ira, inveja, arrogância, apatia, descrença, crueldade, discriminação, desonestidade, egoísmo, cinismo, superficialidade, ciúmes, maquiavelismo, covardia, entre outros atributos deletérios da desumanidade. Entretanto, é perceptível grandes momentos de redenção entre personagens que protagonizam ou simplesmente antagonizam as obras. Os escombros morais e éticos são confrontados a todo instante, sendo implausível manter-se indiferente às questões impostas pelo autor.

Até onde o homem pode caminhar, qual o limite dos anseios mundanos frente à sublimação da alma? As condutas são apenas norteadoras do medo do castigo divino, ou são referendadas pela nobreza humanizadora? Questões problematizadas que a contemporaneidade ainda não respondeu, litígios não solucionados, pleitos não sanados, homens não humanizados.

O fato é que Dostoiévski busca incansavelmente respostas às questões apresentadas, procura incessantemente o grande significado na vida e traz para sua literatura a acepção mais densa do niilismo.

Sua visão de mundo multifacetada é um convite irrecusável à autorreflexão dos valores e crenças de seus leitores. Mais do que romance, Dostoiévski apresenta verdadeiros martírios, cinge como poucos a ambiguidade da condição humana, prende sublimemente a intensidade das paixões à transcendência e à redenção.

Henrique Matthiesen é Formado em Direito, Pós-Graduado em Sociologia.

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