Esquerda, direita e eleições municipais

sábado, 28 de dezembro de 2019 às 11:10
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*Por Francisco Sulo

Fui instado a escrever um texto sobre como a dualidade bolsonarismo x petismo — ou direita x esquerda — pode interferir nas eleições municipais (municípios pequenos que nem os nossos, do Bico do Papagaio) do ano que vem. Na verdade a dualidade não interferirá no processo ou resultado eleitoral, pelas razões que apresentarei a seguir.

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Eleições municipais são definidas no corpo a corpo, na contiguidade física da qual resultam benefícios reais ou ilusórios. Diante desse aspecto verificável das eleições municipais, a ideologia não representa nada.

Os municípios pequenos da nossa região são totalmente dependentes de dois elementos essenciais à sua manutenção, no que se refere à definição do perfil do eleitor: o setor de serviços, que absorve uma parcela muito pequena da população em idade de trabalhar e o serviço público, administrado, nas diversas esferas administrativas, por coronéis locais. É a possibilidade de ingresso, ainda que temporário, no serviço público, somada a benefícios de outra natureza, inclusive dinheiro vivo, que determina o voto do eleitor de nossas pequenas cidades.

Nesse contexto, desrespeitar a LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal, a 101/00), no que se refere à folha de pagamento e contratos, é fundamental pra sobrevivência das elites políticas locais. Extrapolar limite do orçamento com a folha e manter contratos acima da média é lugar-comum por aqui, ainda que parcialmente corrigível a partir do segundo ano de mandato, depois do voto já pago e das pressões dos órgãos de controle. Mas o ciclo se repete a cada mandato. A compra de votos com promessa de emprego é comum, posto que criminosa, e quem vende o voto pelo emprego, ainda que temporário, não está sujeito a nenhuma ideologia, de esquerda ou de direita, senão a uma lógica muito comum expressa na pirâmide das necessidades básicas de Abraham F. Maslow: é preciso comer, vestir-se e ter onde morar.

Coronéis regionais se utilizam da mesma lógica de contiguidade física em outros níveis da esfera governamental. Nas suas relações com lideranças locais realizam uma divisão do bolo de cargos conforme a disponibilidade deles, efetuada a partir das relações de contiguidade com o governo estadual. Se um município dispõe de 20 contratos para funções ociosas em repartições estaduais e uma liderança regional dispõe de sete representantes apoiadores locais, é possível que as vagas, que corresponderão a mais de duas por representante, gerem um conflito gravíssimo em que os eleitores indicados para ocupar as vagas serão tratados em termos de inteiros e frações de inteiros. A necessidade suprime a dignidade ao mesmo tempo em que faz funcionar a máquina do poder indefinidamente. Realizar concursos públicos, neste contexto, implica em desmanchar o sistema, na medida em que torna os cargos impossíveis de continuarem como objeto do jogo político.

Até aqui nos restringimos aos cargos utilizados para compra de votos e manutenção do sistema de eleição local e regional. Acrescente a isso os benefícios como casas populares, cestas básicas, contratos de prestação de serviços, aquisição de material e construção – todos eles mercadorias no mercado de votos – e se pergunte: onde aí entra a ideologia?

 

A ideologia entra como discurso camuflador dos reais motivos de se votar em alguém. Um candidato honesto, mas esquerdista, sofrerá a justificativa de que não recebeu o meu voto porque sou conservador, para omitir o fato de que não na verdade não votei nele porque não tinha nada a ganhar com isso. Particularmente, muita gente afirmou não votar em mim (fui candidato a prefeito em Esperantina em 2016 e não comprei votos) por conta da pecha de ateu, a mim associada.

O voto ideológico parece mais associável às eleições presidenciais, onde a contiguidade física não existe para todos os eleitores. Aí passa a existir, sim, margem para a exploração da ideologia, do preconceito e outras razões para se evitar um político progressista ou conservador.

No nível de municípios como os nossos, porém, tudo não passa de fachada.

E segue o baile.

*Francisco Sulo, 42 anos, servidor público federal (IBGE), escritor, articulista político

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