O Brasil merece paz na democracia

sábado, 31 de outubro de 2026 às 09:57
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Jutahy Magalhães Júnior. – Foto: Internet

*Por Jutahy Magalhães Júnior

Durante muito tempo, acreditei que o Brasil havia alcançado dois consensos civilizatórios sólidos e irreversíveis: a democracia como valor inegociável e o combate à inflação como política permanente de Estado, independentemente do governo de plantão. Infelizmente, os acontecimentos dos últimos anos demonstraram que, pelo menos em relação à democracia, essa conquista ainda está longe de ser definitiva.

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Desde a vitória de Jair Bolsonaro, em 2018, a democracia brasileira passou a viver sob permanente tensão. Foram quatro anos de ataques às instituições, questionamentos ao sistema eleitoral, e tentativas sistemáticas de desacreditar os mecanismos que sustentam o Estado Democrático de Direito. Esse processo culminou nos gravíssimos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, quando as sedes dos Três Poderes foram invadidas e depredadas por grupos que não aceitavam o resultado das urnas.

A democracia resistiu, mas não saiu ilesa. E, sobretudo, ficou evidente que sua sobrevivência não pode ser considerada uma conquista irreversível.

A possibilidade de uma vitória de Flávio Bolsonaro representou,na minha avaliação, a continuidade e o aprofundamento desse projeto político. Não se trata de uma divergência convencional entre esquerda e direita, absolutamente legítima em qualquer sociedade democrática. Trata-se do risco de consolidar um modelo de poder personalista, de caráter familiar, com tendências autoritárias e pouca disposição para aceitar os limites impostos pelas instituições republicanas.

O Brasil não pode permitir que a alternância democrática de poder seja substituída pela pretensão de perpetuação política de uma família. A República não comporta dinastias, muito menos projetos que subordinem as instituições aos interesses de um grupo familiar.

É nesse contexto que considero fundamental reconhecer o papel histórico de Lula. Sua vitória sobre Jair Bolsonaro, em 2022, representou muito mais do que uma alternância de governo. Foi uma vitória das forças democráticas, reunindo brasileiros de diferentes posições ideológicas em torno da defesa das instituições e do respeito à Constituição. Na minha avaliação, essa vitória foi decisiva para preservar a democracia brasileira.

A disputa política de 2026 reforçou a necessidade de manter viva essa mesma consciência democrática. Nenhuma vitória eleitoral, por mais expressiva que seja, elimina definitivamente os riscos autoritários. A vitória de Lula em 2026 salvou novamente a nossa democracia e nessa eleição também a nossa soberania.

Nesse momento, vale recuperar o exemplo e os ensinamentos do saudoso governador Mário Covas, um dos grandes homens públicos da nossa história. Covas compreendia que a defesa da democracia deveria ser a principal referência para distinguir os campos políticos. Divergências econômicas, sociais e ideológicas fazem parte da vida pública. O compromisso com as regras democráticas, não.

Essa é uma lição que precisa ser permanentemente lembrada.

O Brasil precisa de uma direita democrática, moderna, responsável e comprometida com a Constituição. Assim como precisa de uma esquerda e de um centro igualmente comprometidos com esses valores. O que não podemos aceitar passivamente é que o campo conservador brasileiro continue subordinado a lideranças que reiteradamente colocaram em dúvida a legitimidade das eleições e das instituições.

Os episódios envolvendo Flávio Bolsonaro e suas manifestações políticas precisam ser examinados à luz desse histórico. A democracia exige vigilância, mas também responsabilidade na avaliação dos fatos. Não podemos banalizar ameaças autoritárias nem transformar divergências políticas legítimas em acusações indiscriminadas.

Estamos diante da oportunidade de iniciar um novo ciclo na vida política brasileira.

É fundamental que os próximos anos permitam o surgimento de novas lideranças, de diferentes correntes de pensamento, capazes de oferecer ao país projetos de desenvolvimento, justiça social, estabilidade econômica e fortalecimento institucional. Lideranças que compreendam que adversários políticos não são inimigos a serem eliminados, mas representantes legítimos de parcelas da sociedade brasileira.

Meu desejo é que, em 2030, o Brasil possa realizar uma eleição presidencial em que candidatos de esquerda, centro e direita disputem livremente a preferência dos eleitores, apresentem suas propostas e, ao final, reconheçam sem hesitação a vontade soberana das urnas.

Que o vencedor governe com legitimidade e que os derrotados exerçam seu papel de oposição com responsabilidade e respeito às instituições.

A democracia não pode depender da vitória de um determinado partido ou de uma determinada liderança. Ela precisa ser um patrimônio comum de todos os brasileiros.

Precisamos superar a ideia de que cada eleição presidencial representa uma batalha pela sobrevivência das nossas instituições. Uma democracia madura é aquela em que os cidadãos podem discordar profundamente sobre os caminhos do país, sem jamais colocar em dúvida as regras que garantem a convivência entre diferentes.

O Brasil já perdeu tempo demais com crises políticas, radicalização e ameaças institucionais. Temos desafios imensos pela frente: reduzir as desigualdades, promover o crescimento econômico, melhorar os serviços públicos e oferecer oportunidades às novas gerações.

Nada disso será plenamente alcançado sem estabilidade democrática.

Que possamos, finalmente, consolidar o mais importante dos consensos nacionais: governos passam, partidos se alternam, lideranças surgem e desaparecem, mas a democracia permanece.

O Brasil merece paz. E essa paz só será duradoura se for construída e preservada na democracia.

*Jutahy Magalhães Júnior é um advogado e político brasileiro filiado ao Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Foi ministro do Bem-Estar Social durante o governo Itamar Franco. Pela Bahia, foi deputado federal durante oito mandatos e deputado estadual.

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