O conceito de verdade

terça-feira, 8 de setembro de 2026 às 08:57
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Valdo Rosario Sousa. – Foto: Arquivo pessoal

*Por Valdo Rosário Sousa

O problema da verdade e os desafios da educação filosófica no Ensino Médio, segundo Protágoras e Nietsche

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1.2. O conceito de verdade

O conceito de verdade não é tão simples de definir; pode-se dizer, de acordo Abbagnano (1999, p. 994-998), que existem cinco conceitos, que são: 1º – à verdade no sentido de correspondência; 2º – verdade como revelação; 3º – a verdade como conformidade a uma regra; 4º – a verdade como coerência; 5º – a verdade como utilidade.

Platão foi o primeiro a formular esse conceito de verdade explicitamente, no diálogo Crátilo, Platão (2001, 385b) define o que é um discurso verdadeiro: o verdadeiro é o que diz como as coisas são; o falso é o que afirma o que elas não são; o que é e o que não é. No diálogo O Sofista (1972, 262d), o Estrangeiro afirma que todo discurso tem que ser sobre algo, pois sobre o nada não é possível nenhum diálogo filosófico. Aristóteles afirma na metafísica o que é a verdade e à falsidade:

Falso é dizer o que o que é, não é, ou que o que não é, é; verdadeiro é dizer que o que é, é, ou que não é, é; assim, quem afirma que uma coisa é, ou que não é, estará dizendo uma verdade ou uma falsidade; mas, se houvesse um termo médio, nem do que é se diria que é, nem do que não é, que não é.  (ARISTÓTELS, 1969, 1011b).

Aristóteles (1969, 1324b) define que são falsas as coisas que em si próprias não existem, ou também que não existe o que dá impressão de serem. Uma descrição sobre um objeto ou ideia é falsa, quando a coisa ou ideia descrita não existe. Por exemplo, atribuir a um quadrado equilátero aplicado a um triângulo retângulo. Aristóteles (1969, 1027b), afirma que há duas teses para a verdade: a primeira está ligada ao pensamento ou à linguagem, não necessariamente ao ser ou à coisa. O juízo verdadeiro se concretiza quando sujeito e predicado se combinam, e se negam quando se separam. A verdade e falsidade não se juntam nas coisas. Isso não significa necessariamente que a verdade é o bem, e o mau, a falsidade. Juntam-se no pensamento, quanto aos conceitos simples e às essências; a verdade e a falsidade sequer existem quanto essência no pensamento.

Na segunda tese, a verdade é medida pelo ser ou a coisa, não pelo pensamento ou o discurso. Para os gregos, o ser é verdadeiro ou a verdade existe e se demonstra para o pensamento; pensar o que não é, é pensar o não ser, é pensar no que não existe, e, com isso, pensar o não ser é não investigar o ser como ele é; se tornará mentira, porque o pensamento do ser, está no campo das aparências. Segundo Aristóteles (1969, 1051a-1051b), o conceito ser e não ser, são aplicados de três maneiras: referências as categorias; potência ou ato e no sentindo verdadeiro ou falso. A mentira para os gregos é afirmar ou atribuir qualidade a uma coisa que ela não tem, e a mentira está na linguagem de quem afirma ou nega alguma coisa.

O segundo conceito de verdade é a revelação ou a manifestação. Nesse sentido, existem duas formas para determinar esse conceito na história da filosofia: a empírica, metafisica ou teológica. O que se manifesta de imediato para o homem, sendo, portanto, sensação, intuição ou fenômeno, acontece por meio da experiência. Para Locke, a verdade se caracteriza da seguinte maneira: “A verdade é o estabelecimento por palavras, do acordo ou desacordo das ideias segundo o que é. Falsidade é o estabelecimento, por palavras, do acordo ou desacordo de ideias de modo diverso do que é” (LOCKE, 1978, p. 293).

O nosso conhecimento advém da experiência, entretanto, sua origem, quanto à essência, não está nela: “Mas, embora todo o nosso conhecimento comece com a experiência, nem por isso se origina todo ele justamente da experiência”. (KANT, 1974, p. 24). O conhecimento provém das ideias inatas “a priori”, das experiências, que é “a posteriori”; a verdade, nesse caso, quanto aos objetos físicos, é “a posteriori”; já como essência, é “a priori”.

Descartes (2004, p. 62), coloca em dúvida todo o conhecimento adquirido ao longo do tempo; todo nosso conhecimento poderia ser apenas ilusões. Ele recorre ao método da dúvida metódica, hiperbólica e universal para resolver seu problema, conhecido como o cogito cartesiano, na IV parte do Discurso do Método: “eu penso logo existo”. O método cartesiano serviu como fundamento para a verdade, como revelação ou eternas. Descartes (2004, p. 292) na IV Meditação, volta ao conceito de verdades eternas ou inatas, como sendo superior à verdade no contexto imanente.

A revelação metafisica ou teológica revela-se por meio excepcionais, que tornam clara a existência das coisas para o homem; o verdadeiro é o que se manifesta por meio da experiência ou do espírito. Santo Anselmo (2005, p. 193), em seu diálogo sobre a verdade, afirma que a verdade é um fenômeno transcendente, que se manifesta pelo espírito para o ser. Essa concepção reaparece na filosofia agostiniana; Santo Agostinho afirma que respeita aquilo que se encontra acima da verdade, ou seja, superior à concepção de verdade preestabelecida; dizia, ainda, que acima da nossa consciência existe algo superior, que é a verdade plena (Deus).

Ao prosseguir a discussão sobre os conceitos subjacentes à conceituação de verdade, evidencia-se, nesse ínterim, as assertivas sobre a quarta e a quinta definição. O quarto conceito de verdade, reaparece na segunda metade do século XIX, entre os ingleses; essa definição de verdade, segundo Abbagnano (1999, p. 998), surge pela primeira vez na obra Lógica Morfologia do Conhecimento (1888) escrita por B. Bosanquet. Entretanto, sua difusão acontece na obra do F. H. Bradley, Appearance and Reality (1893). Para Bradley, a verdade é definida como coerência, e está presente na lógica; só é verdadeiro aquilo que não é contraditório; a quinta definição, a que considera a verdade como utilidade, encontra-se ligada diretamente à filosofia pragmática, ao sustentar que a proposição só é verdadeira se tiver uma utilidade.

Essas teorias de verdade foram constituídas ao longo do tempo, e estão fundamentadas em três concepções de verdade: a primeira veio do latim, a segunda do grego e a terceira do hebraico. No latim, a verdade é veritas, que é a relação entre a linguagem e o objeto por ela descrito; que caracteriza a veracidade do discurso com relação a coisa; em grego, a verdade se diz aletheia, que é a manifestação do objeto ao nosso espírito; segundo Kant (1974, pp. 164-165), é um desvelamento por meio da razão, o discurso e o objeto são desvelados e, surge o que definimos o conceito de verdade; o não-desvelamento é a não-verdade; em hebraico a verdade se diz emunah, que é a confiança, promessa e aliança; a verdade está na esperança, na crença em alguma coisa prometida por alguém, que pode ser uma pessoa, uma ideologia ou um ser supremo (Deus). Veritas refere-se a ações que se foram (passado); aletheia refere-se ao que as coisas são (presente); emunah define as ações que serão (futuro).

Valdo Rosário Sousa é Licenciado em filosofia pela PUC/GO; mestre em filosofia pela UFT CÂMPUS de Palmas/TO; professor de filosofia na Escola Estadual de Ensino Médio Prof. Anísio Teixeira de Marabá/PA, 4ª DRE – Marabá – SEDUC/PA. Membro correspondente da Academia de Letras de Rondon do Pará e Região (ALERPRE); membro fundador e presidente da Academia de Letras e Artes do Bico do Papagaio (ALABIP). Autor dos seguintes livros: Amor e Razão volumes 1 e 2, Philos-Poesia, Do “Centu do Ogustu” a Augustinópolis e organizador da antologia da ALABIP Vozes Poéticas, Antologia Literária do Bico do Papagaio.

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