
*Por Paulo Martins
Ao seguir devagar pela noite palmense, pensei o quanto dezembro nos deixa nostálgicos. A leve chuva no para-brisa, gotas escorrendo no vidro do carro. Lá fora, lâmpadas vermelhas, douradas e brancas piscam, invadem espaços e inflama a sensação de felicidade. Mas, para muitos, também traz sentimento de tristeza.
O final de ano é o ciclo se fechando. Enquanto muitos comemoram as festividades, há quem não suporta o período. Há aqueles que sentem uma angústia, por vezes acompanhada de desmotivação, falta de interesse e de vontade em fazer qualquer coisa.
Assim como as empresas, sem perceber fazemos nosso balanço pessoal. Nos confrontamos com questões das quais muitas vezes fugimos ao longo do ano – memórias das dores vividas, os lutos das perdas, fracassos financeiros, as decepções nos relacionamentos familiares. Quando não conseguimos alcançar todas as metas, realizar todos os sonhos, nos sentimos cobrados pelo tempo, pelos familiares e amigos, por nós mesmos.
Como mudar a chave? Não tenho a resposta. Apesar de me sentir assim algumas vezes e ter suportado, não sou capaz de mensurar a dor sentida pelo outro. Não posso comparar as perdas, os conflitos, as decepções alheias com as minhas. São histórias e personagens incomuns, cada um vive dramas únicos, reage de forma diferente.
Como se eu estivesse no fundo de uma velha garagem e assistisse a um filme retrô em preto e branco, recordo de um 31 de dezembro perdido na década de 80. Ouço um galo cantar. Abro lentamente os olhos, raios de sol invadem as frestas do telhado. Passo a mão ao lado, apalpo o lençol amarrotado, meus pais já se levantaram (compartilhávamos a mesma cama). Olho para o lado, em camas separadas vejo meus irmãos mais velhos ainda embrulhados com lenções de retalhos coloridos.
Sinto o cheiro forte do coar do café torrado na hora. A conversa entre meu pai e minha mãe vem do outro cômodo da casa (sala cozinha tudo junto). Falam sobre preparativos: atar o porco, amolar facas, lavar vasilhas (latas e panelas), cortar folhas secas da bananeira, prender cachorro, fazer tempero apimentado, catar lenha seca, lavar a mesa grande, acender a fornalha.
Vejo pessoas chegando: vizinhos, amigos da mesma rua, avós, tios, primos, irmãos, sobrinhos. Fazemos torresmos, linguiça. Fritamos carne e guardamos na lata. Minha avó Alzira, com as mãos na cintura, cabelo preso para trás, está de vestido florido. Meu avô Zequinha cruza as pernas sentado no tamborete, usa camisa xadrez azul e branco; vaidosamente passa a mão no cabelo, tirando-o da testa e o ajeitando de lado.
Boa parte dessas pessoas não estão mais entre nós. Além de muitos tios e um irmão, que se foi antes do combinado, também não tenho mais pai e mãe. Não será possível abraçá-los, fazer videochamada ou enviar mensagem desejando Feliz Ano Novo. Para quem vive situação semelhante, posso dizer que o tempo, apesar de não apagar, ameniza e cicatriza a dor da alma.
Hoje, procuro não me vitimizar e entender que não sou único, cada qual tem seus dramas pessoais, por vezes até mais dolorosos do que os meus. Tento ser otimista, estar bem fisicamente e psicologicamente. Tenho consciência de que sou importante para as pessoas que me amam. Um dia também serei saudades.
Neste 31 de dezembro, quero abraçar o próximo e enviar mensagens para os distantes. Quero desfrutar da companhia das pessoas que amo, para um dia não me lamentar pelo que poderia ter sido. Para você que leu este texto até aqui, felicidades, saúde e prosperidade. Feliz Ano Novo! Viva o Ano Novo!
Paulo Martins é professor e escritor, autor dos livros “Cemitério das bonecas e outros contos” e “Vamos conversar: crônicas”. Mestre em Letras ([email protected] / @profpaulo_martins)












