Iluminado por Deus

sexta-feira, 1 de junho de 2018 às 11:42
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*Por Leonício S. Silva

“Eu sou iluminado por Deus”. Foi o que disse hoje o presidente Michel Temer, em uma igreja evangélica, em Brasília.

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Há muitas pessoas iluminadas por Deus, nesse mundo, senhor Presidente. Mas certamente uma delas não é o senhor. Não questiono aqui a sua fé. Longe disso. Mas tenho fortes argumentos que contrariam a sua convicção em ser um eleito de receber os raios de luz divina.

Então vamos lá.

Moisés foi um iluminado de Deus. Ele tirou o seu povo do cativeiro, e o conduziu em meio a um deserto árido, onde faltava água e pão. E quando todos achavam que iam morrer, caía maná do céu e saía água das rochas. E até um mar se abriu, para que Moisés colocasse seu povo a salvo da perseguição e da morte.

Mahatma Gandi foi um iluminado de Deus. Reuniu seu povo e o sensibilizou a lutar contra o jugo inglês, que solapava a nação indiana com altos impostos, e abandono, e miséria, e esquecimento. E todos lutaram, sem empunhar uma arma, sem arrancar um pedaço de vida, sem derramar uma gota de sangue.

Nelson Mandela foi um iluminado de Deus. Seu patriotismo e sua convicção da liberdade o fez lutar por anos e anos para tornar o povo sul-africano liberto do racismo, uma nação em todos fossem vistos como iguais, e vivessem conforme uma nação justa e humana. Ele foi o líder do Apartheid e, mesmo preso por anos e anos, não cessou a sua fé e a sua luta. O coroamento da sua nação, a África do Sul, veio recentemente ao sediar uma Copa do Mundo, evento de dimensões internacionais, em que o povo daquele país pode mostrar a sua felicidade em serem negros e brancos, reunidos no mesmo povo, no mesmo mundo.

Madre Teresa de Calcutá foi uma iluminada de Deus. Foi ela quem fundou a ordem “Missionárias da Caridade”, organização presente em mais de cem países. Ela foi um grande exemplo para todos, homens, mulheres, crianças. Seu sonho era simples e comum, principalmente entre os religiosos: ajudar os mais pobres. A grande diferença é que Madre Teresa de Calcutá não se satisfazia com pouco e percebeu que, mesmo para a caridade, era preciso trabalhar duro. Por isso, planejou cada passo até criar a ordem e conseguir a autorização da igreja — o processo levou 20 anos. Queria fazer um trabalho diferencial, negociando, inclusive, com empresas para conseguir o que queria.

Eu poderia falar aqui de tantos e tantos outros: Abraham Lincoln, Joana D’Arc, Martin Luther King, Getúlio Vargas, Antonio Conselheiro, e por aí vai. Homens e mulheres que fizeram história, que mudaram a história, que melhoraram a vida do seu povo em alguma coisa, que plantaram sementes das quais brotaram árvores que até hoje frutificam belissimamente; homens e mulheres que lutaram por um ideal, que pagaram altos preços, que sofreram perseguição, que quase fraquejaram em algum momento, mas que nunca abdicaram do desejo de um mundo melhor para todos.

E o senhor, Senhor Presidente? O que tem feito, para merecer a insígnia de Iluminado de Deus?

O senhor recebeu, assim de repente, o papel de conduzir um povo, uma das maiores nações do mundo. Recebeu um país que estava ruim, mas o tem tornado pior. Recebeu um país em que havia pobreza/miséria, mas nada tem feito para abolir esse que é um dos maiores males de qualquer povo: porque a miséria tolhe o homem até da sua própria liberdade.

Diga-nos, Senhor Presidente, o que Vossa Excelência tem feito para matar a fome de milhares de nordestinos, para colocar um pedaço de pão na mesa e um copo de água no pote de tantas famílias nordeste e Brasil afora? Responda-nos, Excelência: o senhor já pisou na terra do Nordeste? Seus pés já sentiram a terra ardente e rachada da seca nos caminhos daqueles lugares paupérrimos, aonde não vai água do céu nem água da terra? O senhor já se sentou a uma mesa de uma família pobre, numa cidadezinha do sertão, onde a refeição era toucinho de porco cozido sem farinha, e só isso apenas, sem um grão de arroz ou de feijão?

O senhor já entrou no Hospital de Augustinópolis, ou em qualquer outro hospital Brasil afora, onde há tantas pessoas doentes, sem atendimento, sem higiene, sem cuidados, sem remédio para aliviar a dor e sem remédio para aliviar a desesperança? O senhor já andou pelas favelas, pelas ruelas do Rio de Janeiro, onde as pessoas vivem escravizadas, subjugadas, amedrontadas, com a vida à mercê dos traficantes, assassinos, ladrões e estupradores?

Diga-nos, senhor Presidente, o senhor já sentiu a dor da fome no estômago vazio, a dor da sede na boca sedenta, a dor da dor no corpo esperando apenas a hora do alívio da morte? O senhor já sentiu as misérias, as mazelas, as feridas purulentas da vida?

Saia do seu trono dourado, Senhor Presidente. Saia da sua sala climatizada, da sua residência exuberante, do seu carro luxuoso, saia da sua vida de ouro e de flores, e ande pelo Brasil, pelas cidadezinhas, pelos lugarejos, pelos campos, pelas casinhas, pelo mundo real que você não conhece, que você nunca sentiu. Ande por onde há sofrimentos, gemidos, lastimações, desespero e desesperança. Sinta tudo isso na pele, nos ossos, na alma. E aí então use o microfone, diante de uma platéia, e veja se terá coragem de se intitular um Iluminado de Deus. A não ser que Vossa Excelência não tenha medo de blasfemar.

Faça tudo isso, e Vossa Excelência saberá mesmo se está cumprindo com o dever de conduzir um povo, de guiar uma nação. E saberá se pode mesmo colocar sua cabeça no travesseiro, à noite, e dormir seu sono tranquilo, com a certeza de trabalho feito, de missão cumprida.

Porque um Iluminado de Deus planta árvores de felicidade, de amor, de compaixão, de igualdade, de paz, de liberdade. Um Iluminado de Deus planta árvores de vida.

E o senhor, o quem tem feito na sua história? Talvez Vossa Excelência tenha querido apenas contar uma estória de ficção, com um personagem chamado “Iluminado de Deus”.

O senhor é um homem intelectual. Escreva o livro, e eu pensarei em lê-lo.

Leonício S. Silva

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