Dona Raimunda quebradeira de coco é tema de campanha internacional de empoderamento feminino

quinta-feira, 11 de outubro de 2018 às 09:28
Divulgação / Governo do Tocantins

SÃO MIGUEL – A história de Dona Raimunda, a quebradeira de coco e líder comunitária de São Miguel do Tocantins que ficou conhecida mundialmente, integra a campanha da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e da ONU Mulheres que visa articular redes, identificar desafios e divulgar experiências e conhecimentos sobre o empoderamento e a autonomia das mulheres rurais, indígenas e afrodescendentes da América Latina e no Caribe.

“Qualquer pessoa pode contar histórias, desde que tenha em mente que suas palavras terão importância enorme e darão vida aos pensamentos de uma personagem e poderão motivar mudanças significativas na vida do leitor. Com atenuantes de dor e alegria, de sofrimento e de vitórias, a história da Dona Raimunda Quebradeira de Coco, uma trabalhadora rural, líder comunitária e ativista política brasileira se mistura com a de muitas outras mulheres rurais, da roça, das lavouras, das comunidades quilombolas e indígenas”, destaca a campanha.

A desigualdade de gênero é uma das causas estruturais da pobreza rural e um dos maiores desafios que os países da América Latina e do Caribe devem enfrentar para desenvolver o potencial do mundo rural. Embora as mulheres rurais tenham uma participação significativa nas economias locais, seu trabalho é muitas vezes invisível em pesquisas, censos nacionais e agropecuários, bem como em suas próprias comunidades.

Com o intuito de mostrar que equidade de gênero e respeito são valores necessários cotidianamente, a Organização das Nações Unidas (ONU) decretou que 2018 seria o Ano da Mulher Rural. Pensando nisso, a partir do primeiro dia do mês de outubro, iniciou-se uma série de matérias que fazem parte da Campanha Regional pela Plena Autonomia das Mulheres Rurais e Indígenas da América Latina e do Caribe – 2018. Serão 15 dias de ativismo em prol das trabalhadoras rurais que, de acordo com o censo demográfico mais recente, são responsáveis pela renda de 42,2% das famílias do campo no Brasil.

Arte: Divulgação / Assessoria

Desenvolvimento Rural: a história de Dona Raimunda

Raimunda Gomes da Silva, 66 anos, nascida e criada em Novo Jardim (MA), filha de agricultores, com 10 irmãos, casou-se aos 18 anos, teve uma vida difícil, decidiu abandonar o marido 14 anos depois e criar sozinha os seis filhos, trabalhando como lavradora. Baixinha de traços e personalidade fortes, na sua fala simples, mistura temas do cotidiano e toca em feridas sociais em seus discursos, em comunidades agrícolas ou palácios, sem perder o tom. Nunca estudou, mas é uma líder nata, de visão política apurada.

Em 1991 fundou, junto a outras mulheres, a Associação Regional das Mulheres Trabalhadoras Rurais do Bico do Papagaio (Asmubip). Começaram a promover encontros para discutir seus direitos, primeiro nos municípios mais próximos e, em seguida, nos estados vizinhos. Logo, em 1992, criaram o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), que hoje é atuante nos estados do Pará, Tocantins, Piauí e Maranhão.

Cheia de fibra tal como dos cocos dos quais arrancou o sustento, Dona Raimunda trabalhou, lutou, venceu. Aos 20 anos aprendeu a assinar o nome e tornou-se porta voz de 400 mil trabalhadoras rurais extrativistas, em defesa do meio ambiente e dos direitos das mulheres. Em sua trajetória, foi responsável pela Secretaria da Mulher Trabalhadora Rural Extrativista do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS).

Devido a atuação na defesa dos direitos das mulheres trabalhadoras da região do Bico do Papagaio, recebeu o título de Doutora Honoris Causa da Universidade Federal do Tocantins e prêmios como o Diploma Mulher-Cidadã Guilhermina Ribeira da Silva (Assembleia Legislativa do Tocantins) e o Diploma Bertha Lutz (Senado Federal) concedido às mulheres que ofereceram relevante contribuição na defesa dos direitos da mulher e questões de gênero no Brasil. Em 2005, integrou a lista mundial das mil mulheres que concorreram ao prêmio Nobel da Paz.

Hoje, está em seu segundo casamento, com o também aposentado Antônio Cipriano, e adotou o sétimo filho, Moisés, órfão de um líder sindical assassinado na década de 1990. Devido à idade avançada e às doenças, Dona Raimunda está longe do ativismo, mas afirma que há outras mulheres à frente das causas nos estados.

A ex-quebradeira de coco já quase não sai mais de sua casa, por isso, ela afirma que é difícil o contato com as demais quebradeiras. “Eu só vejo elas quando vem aqui me visitar. Eu queria que elas tivessem mais acesso à saúde, aos estudos, tivessem uma moradia melhor, melhor qualidade de vida, por que isso ainda não é visto como profissão e dificulta na hora de aposentar”, avalia.

Dona Raimunda não para. Ela é autora de várias poesias e músicas, onde denuncia a injustiça imposta ao povo do campo pela estrutura opressiva e expressa a esperança de um mundo diferente. A sua trajetória virou a trama central do vídeo-documentário “Raimunda, a quebradeira” e tem muito de sua história e das companheiras quebradeiras de coco contadas na produção do cineasta Marcelo Silva.

“O fato de ganhar esses prêmios todos não mudou em nada na minha vida, eu continuo da mesma forma, vivendo do mesmo jeito. O reconhecimento só me fez ter ainda mais responsabilidade. A luta continua. Eu não quero morrer matada, quero morrer na cama, sou feita do pó da terra, e é pra lá que voltarei”, finaliza.

(Redação Voz do Bico, com informações da Assessoria de Comunicação da Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário)

-- Publicidade --
-- Publicidade --

Comentários no Facebook