Após dois anos sem comemorações, Esperantina voltou com a tradicional feira do cupu

quinta-feira, 26 de maio de 2022 às 15:18
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Depois de dois longos anos de pandemia, a festa contou com quatro dias de comemoração em 2022. – Fotos: Geiza Freira/Magson Alves

*Por Daiane da Conceição Silva

Esperantina é uma cidade pequena, do interior do Tocantins, com aproximadamente 11 mil habitantes, localizada na confluência entre os rios Araguaia e Tocantins, sendo o último município do famoso “Bico do Papagaio”. Hospitaleira e rica em diversificadas espécies de frutos nativos, abriga a tradicional Festa do Cupu, que ocorre todo ano, sempre no mês de maio, nos arredores da praça Araguaia, a principal da cidade. A festividade acontece desde 2006, quando foi criada por um grupo de professores do Colégio Estadual Joaquina Maria da Silva.

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O cupu fruta originária da Amazônia, é considerado uma das mais importantes fontes de renda da cidade, Além de contribuir com a sua infraestrutura. Os moradores locais sentem-se privilegiados em época de safra, pois colhem o fruto, cortam e empacotam para vender aos comerciantes locais. Eles compram dos cultivadores em torno de R$ 4,50 a R$ 5,00 o quilograma da polpa da fruta, para depois revender a um custo mais elevado a empresas de médio a grande porte dos estados vizinhos, como Maranhão e Pará.

Adalton da Silva, microempreendedor individual, e filho de agricultores é um dos membros que fazem parte do processo de compra e venda da polpa da fruta, especifica que existem espécies diferentes como o cupuaçu, que contém características distintas das demais, como a casca grossa, grande e volumosa. “Posso dizer que trabalhamos em um mercado ilegal, pois não temos condições de montarmos uma pequena indústria dentro da cidade”.

Além de fazer a economia girar, o empreendedor conta que só nessa temporada de colheita já transportou em torno de 12 toneladas de cupu para a cidade de Imperatriz do Maranhão, sendo que uma safra dura de 3 a 4 meses. “Creio que a nossa cidade produz em torno de 70 a 80 toneladas por safra”.

Adalton conta também que a região tocantina tem um diferencial quando o assunto é a poupa do cupu. Na Bahia o caroço da fruta é retirado na despolpadora, fazendo com que ela solte um caldo grosso, sendo que nessa região o processo é manual, feito com a tesoura, para separar a poupa do caroço, tornando-a mais consistente e original, sem nenhum tipo de aditivos.

A diretora do Departamento de Eventos e Cultura da prefeitura, Suene Oliveira, atenciosa e prestativa, mostrou todas as programações que ocorreram durante a festividade, que está na sua XV edição, organizada em parceria com o Sebrae, serviço que dá apoio às micro e pequenas empresas.

Depois de dois longos anos de pandemia, a festa teve quatro dias de comemoração em 2022, 19, 20, 21 e 22 de maio.  “Durante nossa programação teremos o famoso concurso de pratos feitos com o próprio Cupu, e ocorrerá a final do campeonato de futebol Taça Cupu e durante o dia a XII edição do Enduro do Cupu”.

À noite, na quinta-feira, 19, como de costume, foi gospel com os cantores Regina Santos, Régis e Juvenal, Aldoraya e Banda e Aguida Mariana. Sexta, à noite com os vocalistas Romário Sousa, Vando Silva e o tão esperado Biu do Piseiro, cantor muito conhecido em toda a região. Ele apresentou canções que estão na boca do povo, “Seu after sou eu” e “No beco ou na casinha”.

Suene conta as atrações que não pararam por aí. “O sábado foi de manobras radicais para os motoqueiros durante a tarde, e mais festa durante a noite. Os animadores da festa foram David e Danilo, Moura Santos e Forró perfeito”. Domingo teve mais, além de um café da manhã, foi dada a largada para a trilha dos motoqueiros, com direito a som automotivo comandado por Mc Kiko, Dj Gabriel Melo e Dj Jheff.

A diretora explica que a equipe de organização do evento é composta por diretores, secretários, chefe de gabinete, prefeito e primeira dama. Já a de apoio, que também conta com a participação dos funcionários da vigilância sanitária, tem como missão receber e organizar os barraqueiros. .

VIVÊNCIA

Na noite do dia 19 de maio, primeira comemoração depois de 24 meses sem festas organizadas, chega até ser um privilégio estar novamente a ver expressões faciais no rosto das pessoas. Sorrisos, lágrimas, entusiasmo e muita diversão.

Subindo pela Vitorino Ribeiro, avenida principal que dá acesso a entrada da cidade, e indo em direção ao palco, por trás das estruturas armadas para receber os músicos e palestrantes da noite, as movimentações são intensas, logo na primeira noite com a programação evangélica, pastores das igrejas da cidade iniciando a festa com uma oração. Durante o início da festividade, não só evangélicos estavam lá, mas pessoas de outras crenças. Solenidade aberta para todos os públicos de todas as idades.

Aos redores da praça, lado direito, subindo na rua Getúlio Vargas, Natália Teixeira passos e Pedro da Cruz Araújo contam que vieram da cidade de Imperatriz e possuem uma barraca de bebidas preparadas na hora, são veteranos em festas organizadas na cidade e nos municípios do bico do papagaio. A vendedora conta que até aquele momento o movimento estava fraco e sem muitos pedidos. Mesmo sendo noite evangélica, outras pessoas também vão, “Essa é nossa primeira vez na cidade, e esperávamos algo mais organizado”. Conta Natália.

Dava para ver o entusiasmo no rosto dos adolescentes que cercavam também um cidadão imperatrizence que possuía uma banca de bijuterias, fazia até tatuagens de rena e escrevia o nome em um caroço de arroz, fazendo dele um colar, encantou muitos jovens com seu trabalho.

Por baixo das tendas armadas pela prefeitura da cidade em parceria com os Sebrae, barracas organizadas e bem estruturadas, Os jovens Jaylson Ribeiro Duarte, Pedro Henrique dos Santos Sousa e Ivo de Oliveira Sousa, contaram que a festa estava ótima, “Eu danço até um forrozinho”. Conta Pedro Henrique. O jovem que estava usando um boné cor de rosa, camisa meio esverdeada e um copo de capeta na mão, ( bebida líquida, a base de vodca, leite condensado, guaraná e canela em pó).

A Procura dos derivados do cupu, foram encontrados somente dois, o licor e o bombom, sendo que é uma fruta capaz de serem extraídos diversos tipos de receitas diferentes, como o mousse, sorvete, doce, vitamina, e o verdadeiro licor. Aproveita-se tudo, desde o caroço até a casca. A dona da barraquinha que fez o licor, ofereceu por R$ 2,00 meio copo descartável da bebida. Depois de comprada o jovem Ivo de Oliveira se prontificou a experimentá-la, virou o copo de uma vez só descendo de garganta a baixo. Depois daquele momento não deixou dúvidas, “ É 51 pura, nada de velho barreiro”.

Ainda naquela noite, com muita música, Jaylson conta sua insatisfação em relação a falta das receitas provindas do cupu, “ ‘Senti a falta de muitas coisas’, ‘o que não falta aqui é cachaça’”. Relata que já existiu edições melhores, como quando veio a banda Calypso para o evento.

A praça não é muito grande, ainda mais com tantas pessoas juntas em um mesmo evento, na noite de 20 de maio o movimento de pessoas era maior, por conta da atração principal da festa, que deu início as meia noite e meia. A concentração maior era ali mesmo, em frente ao palco havia casais dançando, grupo de jovens bebendo e cantando junto ao vocalista.

A noite mais marcante, sem sombra de dúvidas foi exatamente aquela sexta feira, na ponta da praça e meio distante do palco. Os ânimos se exaltaram, e como quase todo ano a confusão já estava feita, e foi aquele alvoroço, bate boca e empurrões misturado com álcool. Teve até quem ficasse quase despido na parte de cima por conta do “puxa agarra” daquela baderna. Mas aquele acontecido era somente para animar o público.

Quatro dias e quatro noites de programações movimentaram a economia da cidade esperantinense, que com toda certeza foi importante, tanto para a população quanto os administradores locais, todos os hotéis e pousadas do município ficaram pequenos para o número de turistas que vieram a passeio.

Fazer parte dessa vivência é relembrar a felicidade de noites que não eram festejadas há dois anos, esquecer o medo, e os receios de abraçar novamente, dizer oi mostrando a expressão facial, dançar em meio a multidão, e caminhar lado a lado com os velhos e novos amigos.

Os preparativos de logística seguiam um dia antes da festa, para a montagem do palco, a iluminação, geradores de energia e a limpeza da cidade., mas nem sempre foi assim. As barracas dos vendedores, que hoje são estruturadas com ferro e cobertas com lona, eram todas feitas de madeira e cobertas com palhas de coco babaçu. A coordenadora do Colégio Estadual Joaquina Maria da Silva, Cleucilene dos Santos Nunes lembra que a ideia da festa teve início em um sábado letivo, quando os funcionários estavam conversando sobre as festas tradicionais da  região.  Os presentes se lembraram, na ocasião, da Festa do Arroz, do município de Carrasco Bonito, que  era bem conhecida  no Tocantins e uma das mais tradicionais da época. . “Daí naquela discussão, ‘por que que a gente não cria a festa do Cupu? uma vez que na nossa região tem tanto Cupu’. E aí a gente faria o mousse, o doce, a vitamina e outros”, explica Cleucilene.

A ideia nasceu dentro da escola, mas a intenção era realizar a festa na praça, para a população inteira. Para que isso ocorresse, foram estabelecidas parcerias com a prefeitura da cidade, o Sebrae e também a Ruraltins, (Instituto de Desenvolvimento Rural do Estado do Tocantins). “Conseguimos uma moça da cidade de Augustinópolis, que veio nos capacitar pra gente aprender mais a como manusear os derivados da fruta”.

A origem da festa se deu em um momento de inspiração e muitas ideias que para Cleucilene é um privilégio falar sobre, a coordenadora relatou que no dia da inauguração produziram todas as goluzemas dentro da escola, e foi exatamente em um mês de Maio, e ficou sendo organizada até 2010 pela escola. “Nós organizávamos a questão das barracas, confeccionávamos as camisetas, marcávamos os lugares onde as barracas ficariam concentradas, as divisões. Tudo isso a gente fazia, era bem trabalhoso. Além do mais, a maioria dos dias festivos eram letivos, tínhamos que dar aula e trabalhar na festa. Uma vez a festa deu início na quinta feira, e tivemos que dar aula quinta e sexta. Passávamos muito estresse e tínhamos pouco retorno”, resume Cleucilene.

O prefeito da cidade na época, Armando Alencar da Silva, ficou responsável por trazer os músicos para a festa. De 2010 até a edição atual, a responsabilidade é dos administradores da cidade. E tinha até quem fazia artesanato produzido da casca da fruta. “Todo aquele dinheiro arrecadado na festa a gente utilizava na escola. Uma vez compramos um teclado, e às vezes guardávamos para a festa dos professores”, conta Cleucilene.

Mesmo com o fato de muitos cantores renomados como Anjo Azul, Calipyson, Forró Boys e Marizan Rocha já terem participado da festa e apesar de todo o trabalho envolvido, a coordenadora lembra que como a festa foi criada por essa equipe original seria interessante um pouco mais de crédito.

. “Queríamos pelo menos um crédito como idealizadores da festa, e acredito que na escola tenham documentos e fotos que sirvam de evidência”. afirma a coordenadora.

Daiane da Conceição Silva é augustinopolina, estudante de jornalismo na Universidade Federal do Maranhão – UFMA, e Publicidade é Propaganda na Universidade Estácio de Sá.

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