
Por Annady Borges e Joice Danielle Nascimento
Um sonho não tem fronteiras. E para alcançar o objetivo de realizar uma graduação, muitos estudantes enfrentam quilômetros de distância, cruzam um país inteiro e até mudam de continente para ter a oportunidade de fazer um curso superior em uma instituição pública. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE) divulgados em 2020, no Brasil, estudantes de ensino superior percorrem em média cerca de 100 km para buscar o tão sonhado diploma de graduação. Entre as muitas cidades brasileiras escolhidas pelos jovens estudantes, está Palmas, a capital do Tocantins.
A capital tocantinense recebe anualmente dezenas de estudantes de diferentes municípios brasileiros, que buscam oportunidades de formação profissional em instituições de ensino superior públicas e privadas. Só para se ter uma ideia da quantidade de alunos que Palmas recebe, na Universidade Federal do Tocantins (UFT) por exemplo, no Câmpus da capital, dos 8.884 alunos de graduação que a instituição tem matriculados hoje, 7.483 são naturais de outros municípios e até de outros países. Apenas 1.401 estudantes são naturais de Palmas. Essa realidade também é compartilhada por outras instituições públicas que possuem câmpus na cidade, como Instituto Federal do Tocantins (IFTO) e a Universidade Estadual do Tocantins (Unitins), além das faculdades particulares.

O pró-reitor de Assuntos Estudantis da UFT explica sobre os auxílios oferecidos aos estudantes que ingressam na Universidade e que também são garantidos aos estudantes de outras localidades. Ouça:
Mas seguir um sonho, nem sempre é só flores. Transformações, adaptações e novas relações fazem parte da vida de quem estuda ou se muda para outra cidade para buscar o tão sonhado diploma. Entre essas muitas histórias de estudantes que vivem essa realidade em Palmas, há estudantes que se deslocam todos os dias de sua cidade natal para a capital, estudantes que optaram por se mudar para mais próximo da universidade e estudantes que se desdobram para conseguir visitar a família. Mesmo com os muitos perrengues e dificuldades, a busca por um futuro de mais estabilidade e por melhores condições de vida, sobretudo para jovens de classes sociais mais baixas, é o que motiva esses estudantes a deixarem seu lugar e sua rede de apoio social. Histórias como as de Paulo, Anna Olívia, Mikaela, Alice, Rosvaldo, Ana Paula e Malik, estudantes muito diferentes, mas que têm em comum a busca por um sonho.
Todo dia uma viagem

Paulo Regis Pereira, não precisou deixar a casa da família nem se mudar de cidade para cursar o ensino superior. Mas se engana quem acha que a rotina do jovem de 23 anos é mais fácil por isso. Natural de Paraíso do Tocantins, cidade vizinha a Palmas, o estudante cursa Engenharia Elétrica no Câmpus da UFT na Capital. Apaixonado por tecnologia, por jogos eletrônicos e design gráfico, Paulo viu no curso de Engenharia Elétrica a oportunidade perfeita de unir suas três paixões. No entanto, para concluir a graduação, ele precisa enfrentar diariamente cerca de 100 km de estrada, a bordo de um ônibus para ir e voltar para da Universidade, fato que por mais que ele, com seu jeito divertido tente “levar na esportiva”, já o fez desanimar algumas vezes.

Além de estudar, Paulo também faz estágio na UFT, e como seu curso é integral, ou seja, com aulas no período matutino, vespertino e noturno, o estudante passa o dia inteiro na Universidade. A rotina é bem puxada, e como o estudante mesmo costuma dizer, às vezes ele só vai em casa para dormir. Paulo chega na UFT por volta das 07h da manhã e na maioria das vezes só retorna para Paraíso depois das 22h.
O principal desafio para o jovem é tentar fazer todas as suas atividades e compromissos caberem dentro de um dia com apenas 24h, principalmente, no atual período do curso, no qual está trabalhando no seu projeto de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Mas, o que o faz levantar todos os dias é a certeza de não ficar desempregado após o fim do curso. “Todo dia é uma viagem, literalmente! Mas quando terminar o curso, eu não vou ficar desesperado para arrumar um emprego e já vou ter um norte para seguir uma carreira”, brinca o estudante.
Vale tudo por um sonho
O que você faria para realizar um sonho? Qual seria o seu limite quando o assunto é concluir um curso superior? A estudante de Engenharia Agronômica do Instituto Federal do Tocantins (IFTO) Anna Olívia Lopes, de 25 anos, já fez de tudo, desde se mudar para uma cidade que não gosta, até colocar sua integridade física em “risco” para conseguir matar a saudade de casa e não perder os conteúdos de sala de aula. Na reta final da graduação e também da gestação de sua primeira filha, a estudante não vê a hora de encerrar esse ciclo e voltar para Santa Filomena, cidade piauiense que fica localizada entre as divisas do Estado com o Tocantins, o Maranhão e a Bahia.

Com aptidão para as Ciências Agrárias, Engenharia Agronômica não foi a primeira opção de Anna, exatamente por ser um curso que não é ofertado na sua cidade, nem em cidades vizinhas. Por isso, a estudante chegou a iniciar o curso de Engenharia Florestal em Bom Jesus-PI, município que fica a cerca de 4h de viagem de sua cidade natal. Mas tudo mudou quando a irmã mais nova, Anna Victória Lopes foi aprovada em Enfermagem no Câmpus da UFT em Palmas. As condições financeiras da família não comportavam manter as duas irmãs em locais diferentes, então Anna Olívia decidiu encarar a distância e se mudar para a capital tocantinense. “Eu nunca tive vontade de vir para cá, eu sempre quis ficar perto de casa. Só que por conta das questões financeiras, eu tive que vir. Foi mais porque eu fui obrigada mesmo”, brinca a estudante.
E foi uma mudança e tanto! As irmãs, que até então não conheciam a cidade, já vieram com as bagagens para ficar e logo entenderam que visitar a família com frequência não seria uma possibilidade. “Palmas fica muito mais longe lá da minha cidade, eu não tenho oportunidade de estar lá direto e eu sou muito apegada à minha família, isso é o que mais me afeta. Daqui é mais complicado ir para lá principalmente por conta das estradas. A logística não funciona”. Anna Olívia também não conseguiu se adaptar à dinâmica da Capital e se enxergar na nova cidade. Diferentemente da irmã, que rapidamente se integrou a Palmas, a piauiense não absorveu as mudanças de rotina com facilidade. “Eu venho de cidade pequena, lá a gente resolve tudo em cerca de duas horas. E aqui tudo é muito demorado, eu vou ao supermercado e passo duas horas, tudo é muito longe e eu me estresso muito com essas coisas”, destaca.

O descontentamento com o fato de estar longe de casa só é atenuado quando a estudante tem a oportunidade de visitar a família no Piauí, coisa que ela faz com frequência. Além de viajar para sua cidade nas férias, Anna Olívia sempre aproveita os feriados prolongados para dar um pulinho em Santa Filomena. E foi nessas idas e vindas que ela viveu um dos momentos amedrontadores de sua vida. A estudante se viu obrigada a pegar carona com um desconhecido. Tentando voltar para Palmas a tempo de honrar os compromissos após ter passado um feriado em sua cidade, o ônibus em que ela estava quebrou e para não dormir na estrada, ela decidiu pedir uma carona. Como uma boa estudante de Engenharia Agronômica, a única coisa que ela tinha para se proteger caso a situação ficasse complicada era um canivete. E foi assim que ela chegou à Palmas a tempo da aula.
Com a maternidade, a estudante garante que hoje pensaria melhor na escolha que fez naquele dia e até mesmo repensaria a decisão de se mudar para Palmas. Para ela, o que a faz ficar na Capital até o fim da graduação é a certeza que o curso superior vai garantir melhores oportunidades de trabalho e a estabilidade financeira para a família que ela está iniciando e para a pequena Ana Luísa, que deve chegar em abril de 2024. Mesmo com as dificuldades, Anna Olívia não desencoraja quem tem vontade de seguir o sonho do ensino superior e reconhece que amadureceu bastante com todas essas experiências e principalmente, fez grandes amigos. “Tudo tem um tempo certo e se a pessoa tiver foco ela consegue passar por tudo isso. Eu consegui passar cinco anos aqui! Com muita terapia, mas consegui. Eu também vou levar grandes amigos da faculdade, que me ajudaram muito nesse processo. Graças a Deus eu conheci pessoas maravilhosas aqui!”, conclui a estudante.

Caminhos da independência

Maranhense e muito apegada à família, Mikaela Coutinho Souza tem 25 anos. Vinda de uma família grande, de sete irmãos e natural de Porto Franco, Maranhão, a estudante do curso de Engenharia Agronômica, se mudou para Palmas, Tocantins. Após 5 anos parada em casa, a notícia de sua aprovação no Instituto Federal do Tocantins (IFTO) não foi inicialmente bem recebida pelos pais, que resistiram à ideia de permitir que Mikaela deixasse sua cidade natal para buscar seus objetivos na cidade grande. Contudo, esse sonho sempre esteve presente em seu coração. A resistência inicial dos pais não impediu Mikaela de seguir sua jornada. Mesmo durante a pandemia, quando as aulas começaram no formato remoto, a jovem persistiu, comparecendo diariamente às aulas online. A aceitação de seu sonho por parte dos pais veio gradualmente, e em 2021, com o retorno das aulas presenciais, Mikaela finalmente pôde conhecer sua nova casa em Palmas.
Adaptar-se à vida na cidade grande representou um desafio significativo para Mikaela. O impacto mais marcante para ela foi a necessidade de realizar obrigações do dia a dia sem o suporte familiar. Acostumada com a proximidade dos locais em sua cidade natal, onde podia realizar todas as atividades a pé, Mikaela teve que se adaptar à realidade de andar de ônibus na Capital. Apesar dos obstáculos, essa independência representou um elemento crucial em seu processo de amadurecimento.“É como se eu tivesse saído do casulo, sabe?! Hoje eu já me sinto preparada para passar por situações complicadas, sinto que eu não vou ficar como eu ficava antes, porque querendo ou não, quando você está sozinha tem situações que te deixam muito para baixo e você não tem voz, não consegue se expressar. Com tudo que já vivenciei aqui, hoje eu consigo ser mais firme com as minhas coisas, com as coisas que eu decido”, ressalta.
Para matar a saudade da família, a estudante percorre uma distância de mais de 500 km de ônibus, gastando aproximadamente R$ 180,00 na passagem. Ela realiza esse trajeto a cada três meses. Devido à extensão do percurso, os pais ainda não puderam visitar a filha e não conhecem de fato o lugar onde Mikaela está; somente a irmã mais velha conseguiu visitá-la até o momento. Mikaela ressalta que, após a formatura, planeja expandir ainda mais seus conhecimentos e retornar à sua cidade natal para trabalhar. Segundo ela, a cidade oferece numerosas oportunidades de emprego em sua área.“Hoje eu estou aqui não só porque foi um sonho meu, teve pessoas que sonharam comigo e fizeram com que isso acontecesse. Eu moro aqui, mas são eles que me sustentam, são eles que dão todo o apoio para que eu possa ter estabilidade. E assim, não foi fácil, não é fácil e eu sei que não vai ser, mas vale muito a pena você lutar pelos seus sonhos, você crescer e ser alguém na vida”, conclui.
Cara, coragem e um batom vermelho
Ela saiu de casa em 2017 e, após aproximadamente um ano de formada, ainda utiliza o mesmo batom vermelho desde quando ingressou na Universidade, tornando sua marca registrada. Alice Carvalho, egressa do curso de Enfermagem da Universidade Federal do Tocantins (UFT), tem 25 anos. Natural de Correntes, interior do Piauí, sempre apreciou lidar com pessoas, decidindo unir esse sentimento ao seu maior amor, a saúde. Foi a partir disso que tudo mudou, a piauiense viu no curso de Enfermagem uma oportunidade, decidindo deixar sua cidade natal para se mudar para Palmas no Tocantins.
Para a estudante, a escolha pela cidade não foi aleatória, pois já havia visitado devido à presença de familiares, fazendo com que a Capital conquistasse seu coração. Apesar disso, não esteve imune aos desafios de uma mudança. No início, enfrentou dificuldades em se localizar na cidade e entender o trajeto do transporte público, com isso, acabava percorrendo o mesmo caminho duas vezes, por não saber onde estava de fato na cidade. Além disso, por concluir o ensino médio em um Instituto Federal, Alice não teve dificuldades em se adaptar à metodologia de ensino da Universidade.

No entanto, segundo a estudante, ficar longe dos pais foi um dos maiores desafios dessa caminhada. Corrente-PI fica a mais de 800 km de Palmas e demanda um percurso de aproximadamente 13 horas de viagem. Devido à distância, os pais quase não conseguiam visitá-la. No dia da sua formatura foi o único momento em que ela esteve com toda a sua família reunida em Palmas. A tecnologia também fez com que seu coração ficasse menos apertado, Alice conta que sempre ligava para a família e mandava mensagens. E claro, sempre que podia, nos feriados e nas férias, ia matar a saudade da família.
Como apoio emocional, a egressa ressalta que poder contar com os novos amigos foi algo que contribuiu exponencialmente para manter a sua saúde mental enquanto estudava. Durante esses anos, ela criou laços muito fortes com os colegas da faculdade, mas também com algumas pessoas de fora desse ciclo, e ela afirma que os laços permanecem até hoje, apesar de cada um estar em locais diferentes. Para o futuro, Alice destaca que pretende adquirir mais conhecimento fazendo uma especialização, pretendendo conciliar o trabalho com os estudos.
Raízes rurais, caminhos urbanos
Rosevaldo Sampaio Gomes Júnior saiu de Sítio Novo, no interior do Estado do Tocantins, para cursar Engenharia Agronômica no Instituto Federal do Tocantins (IFTO) em Palmas. Com 21 anos e filho de produtores rurais, o estudante sempre se identificou com o curso devido ao trabalho diário que desenvolvia com a sua família na fazenda em que morava. Apesar da existência de outras faculdades mais próximas de seu município, viver uma realidade diferente e ter novas experiências foi o que o impulsionou a sair de casa. O apoio da irmã, que também já estudava na Capital, foi um dos principais motivos pelos quais escolheu Palmas como seu novo lar. No entanto, para o tocantinense que vivia na zona rural, não foi fácil se adaptar à realidade da cidade grande.

“De cara é um impacto muito grande, principalmente por sempre ter essa facilidade de estar no centro de tudo. Por mais que Palmas seja uma capital calma, ainda assim é muito diferente de uma cidade de 10 mil habitantes. Ainda mais para mim que morava na fazenda”, afirma. No meio de toda essa história, veio a pandemia. Rosevaldo teve que voltar para casa e começar a ter aulas online. Mas isso não foi sua maior dificuldade, pois estudar em casa e perto da família foi algo que lhe trouxe tranquilidade. Após um ano de aulas remotas, as aulas presenciais voltaram, e Rosevaldo, que foi pego de surpresa, teve que novamente se ver indo embora de casa para se deslocar à faculdade. Esse processo, segundo o estudante, foi algo muito difícil.
O entusiasmo e a empolgação de calouro por iniciar um novo curso, do nada, esfriou. Seu corpo estava de volta em Palmas, mas seu coração estava em Sítio Novo. Uma das formas de matar a saudade da família é indo mensalmente a sua cidade, onde ele percorre um trecho que dura cerca de 9 horas de viagem. Conhecer novos amigos também foi algo que o ajudou a lidar com as dificuldades enfrentadas na adaptação e com a saudade da família.“Tem aquele ditado, se você quiser ir mais rápido vá sozinho, mas se quiser ir mais longe tem que ir com um amigos. A gente não consegue fazer nada sozinho, quando temos um amigo, a gente consegue dividir as tristezas em momentos de dificuldades, mas multiplicar os momentos de alegria”, ressalta. Ele acrescenta que seus pais não o visitam em sua nova casa devido aos afazeres na fazenda, mas principalmente por conta da distância.
Por último, o estudante que já está quase finalizando o curso destacou que planeja iniciar os experimentos de seu projeto de TCC nas férias, para que em 2024 comece a escrever sua pesquisa. Para o futuro, Rosevaldo visa amadurecer seus conhecimentos, tendo experiências fora de sua região, para então poder retornar a sua casa e colocar tudo em prática. Ele finaliza ressaltando que não se arrepende de ter vindo para a cidade, mas se pudesse, teria pensado melhor e estudado nas faculdades próximas à sua cidade natal.
Emoções em dupla

O sonho de cursar Engenharia Civil foi a razão pela qual Ana Paula Felício deixou o município de São Félix do Xingu, no Pará, para viver em Palmas aos 18 anos de idade no segundo semestre de 2014. Hoje, com 27 anos e com o diploma de engenheira civil chancelado pela Universidade Federal do Tocantins (UFT), olhar para trás é voltar a um dos períodos mais desafiadores e também mais importantes de sua vida. Criada desde de pequena no zona rural do município paraense, a decisão de cursar Engenharia foi tomada no terceiro ano do ensino médio, poucos dias antes de se inscrever no vestibular da UFT.
Mesmo com a pressão da família para fazer um curso na área da saúde, sua coragem de tomar as rédeas da própria vida e fazer suas próprias escolhas inspirou seu irmão, Divino Felício, que decidiu prestar vestibular para Engenharia Elétrica, também na UFT no mesmo período. E mesmo com as dificuldades por terem tido um ensino médio considerado “fraco” para disputarem vagas em dois dos cursos mais concorridos da instituição, ambos foram aprovados juntos na Universidade. Começava ali, uma jornada de descobertas, superações, frustrações, conquistas e muita saudade. Para dois jovens que nunca tinham passado muito tempo longe dos pais, agora tinham que lidar com meses de saudade, separados por cerca de 800 km de distância.
Diferentemente de outras histórias, Ana Paula e Divino não caíram de paraquedas em Palmas. Eles já haviam visitado a cidade anteriormente em duas ocasiões, e até tinham membros da família vivendo na cidade. No entanto, isso não tornou a estadia deles na capital mais fácil. “Saímos de uma cidadezinha do interior, a gente morava na fazenda, a 14 km da cidade, não era nem na cidade mesmo, e de repente viemos para Palmas, uma cidade muito diferente, tanto no tamanho quanto na forma de locomoção. Tivemos que aprender a pegar coletivo, saber os horários, a rota para não pegarmos o ônibus errado. A gente teve que aprender do zero tudo isso”, relata a engenheira.
Além da mudança de rotina, dos medos e dos dos perrengues de estarem em um ambiente diferente, os irmãos Felício ainda tiveram que enfrentar as dificuldades em assimilar os conteúdos do próprio curso escolhido, sobretudo os que envolviam as ciências exatas, ou seja a maior parte da grade curricular. “Ensino médio em uma cidade do interior é uma forma. Quando você vai para a faculdade você vê que o que você aprendeu é muito raso. Então eu cheguei a reprovar em matérias, teve matérias que a gente chegou a passar arrastado por conta disso. A gente chegava na aula, o professor só falava ‘gente isso daqui vocês viram no ensino médio’ e eu ficava perdida, porque pensava ‘eu não vi isso’!

Esses contratempos chegaram a fazê-la pensar em desistir: “Eu pensava sim. Eu reprovei em muitas matérias e como eu sempre fui de estudar muito, eu sempre fiz essa reflexão por estar estudando e não conseguir. Foram muitas apreensões e isso me marcou bastante”. Segundo a engenheira, o que tornou esse processo menos doloroso foi poder contar com o apoio do irmão, tanto na vida acadêmica, quanto fora dela. Além de morarem juntos e compartilharem os dilemas da vida adulta, Ana Paula e Divino cursaram os três primeiros períodos de seus cursos juntos, pelo fato das bases para Engenharia Civil e Elétrica serem compartilhadas na UFT. Isso fez com que os irmãos construíssem métodos de estudos e uma rede de amigos sólida, para além da sala de aula. O apoio da Universidade também foi fundamental para a permanência de ambos. Logo no segundo período, Ana Paula passou a receber um auxílio permanência e ser acompanhada por uma psicóloga.
E em 2020, depois de muitas turbulências, os irmãos Felício se formaram. “A Universidade me moldou, me trouxe conhecimentos tanto para âmbito profissional, quanto para o pessoal. Eu e o meu irmão fomos os primeiros da nossa família a ingressar numa universidade federal. Foi uma conquista muito grande! E deu tudo certo! Foi uma experiência que teve seus impactos, mas foi um período de crescimento muito grande”, destaca a engenheira civil. O ciclo da graduação foi encerrado e agora os irmãos Felício seguem dividindo as emoções da vida, só que agora, profissionalmente. Os dois moram em Parauapebas – PA e trabalham na mesma empresa terceirizada de engenharia que presta serviços para uma mineradora. “Somos muito ligados eu e ele, não de ficar se falando de estar junto, mas de cumplicidade mesmo de irmãos”, finaliza a engenheira.

Um caribenho em terras de cerrado
Se para quem vem de outras cidades do Brasil para viver o sonho de cursar o ensino superior em Palmas já é uma experiência desafiadora, imagina quem precisa cruzar parte do oceano para realizar esse sonho? E mais: imagina sair diretamente de uma ilha do Caribe para aportar no coração do Brasil, na famosa savana brasileira, que é o cerrado. Essa é a realidade de Malik Dane Richards, de 24 anos, que cursa Medicina na UFT. Natural de Spanish Town, na Jamaica, além de enfrentar as dificuldades comuns aos jovens brasileiros que decidem fazer a graduação em outras cidades, o caribenho ainda tem que lidar com as diferenças linguísticas e culturais que envolvem a sua mudança.

Diferente de outros jovens que têm a liberdade de escolher o lugar onde vão estudar, a opção de cursar Medicina em Palmas não foi uma decisão só de Malik, a única certeza que ele tinha é que viria para o Brasil. O jovem estudante chegou à capital tocantinense em 2022, por meio do PEC-G (Programa de Estudantes – Convênio de Graduação), que é um programa do Governo Brasileiro que oferece oportunidades para estudantes estrangeiros realizarem suas graduações em instituições brasileiras.
“O programa nos encaminha para onde tiver espaço. Então a gente escolhe o curso, e onde tiver a vaga disponível para estudantes estrangeiros, eles vão colocando a gente”, explica o estudante. Logo na chegada às terras brasileiras, ele conta que ficou impressionado com a dimensão continental do país. “Eu conheci várias pessoas que não conhecem o mar. Então para a gente, jamaicano, é muito estranho isso, porque a Jamaica é uma ilha. Se você mora no centro do país, uma hora e mais para lá e uma hora e meia, você chega no mar, então todo mundo conhece o mar”, destaca Malik.
Falante de língua inglesa, o primeiro e o maior dos desafios foi aprender Português. Segundo o estudante, a principal dificuldade com a língua são as gírias e os regionalismos, que mudam de acordo com o lugar do país onde se está. Embora hoje já compreenda bem o idioma, Malik explica que às vezes costuma estudar em inglês e só depois traduzir para o Português, principalmente quando precisa fazer apresentações de trabalhos, exatamente porque já passou muitos “perrengues” por esquecer as palavras durante os seminários. Compreender as peculiaridades da cultura da cultura brasileira, sobretudo no Tocantins, também não foi uma tarefa fácil. Ritmos musicais, pratos típicos, dinâmicas sociais, tudo era diferente para o Jamaicano. O clima do cerrado também foi “impactante” para o estudante. Segundo Malik, nada que ele já tenha visto supera o calor dessa região do Brasil. “Meu país é quente, mas Palmas!”, se diverte o estudante.
Outro ponto complicado de morar em outro país para Malick é a saudade da família. Enquanto os estudantes brasileiros enfrentam 10, 12 horas de carro ou ônibus para chegar em suas cidades de origem, o jamaicano tem que enfrentar em torno de 14 horas de voo para voltar para casa, fato que torna a volta para Palmas ainda mais difícil. “Eu vou para a Jamaica só nas férias de dezembro. E é difícil às vezes porque a gente tem saudade da família, da cultura. Às vezes é emocionante, principalmente quando estou lá e tenho que voltar para o Brasil”. Atualmente no 4º período de Medicina, ele sabe que vai passar por isso por mais quatro anos, mas a certeza de que a graduação vai mudar o seu futuro, é o que o faz continuar enfrentando empasses de ser um caribenho em terras de cerrado.
Confira as distâncias percorridas pelos estudantes dessa reportagem no mapa A Origem
Material é parte de um especial multimídia produzido por Annady Borges, Joice Danielle Nascimento, Beatriz Machado, Matheus Amorim e Kauê Guerra. Alunos e alunas do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Tocantins, sob orientação da professora Dra. Liana Vidigal Rocha.












