Retrospectiva: em termos climáticos, 2021 foi um ano de extremos

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021 às 11:27
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Seca registrada em sobradinho/BA. Foto: Wikimedia Commons.

O ano de 2021 termina entrando para a história como o de maior ocorrência de eventos climáticos extremos, de acordo com o Relatório Preliminar do Estado do Clima Global em 2021, publicado pela Organização Meteorológica Mundial (WMO). Incêndios florestais, ondas de calor e frio, secas, tempestades, inundações, ciclones fora de época assolaram todos os continentes em intensidade recorde.

Segundo os cientistas da WMO, as relações e retroalimentações entre os sistemas atmosférico, terrestre, oceânico e as camadas de gelo estão sendo alteradas em decorrência das concentrações inéditas de gases de efeito estufa e do calor acumulado associado, impulsionando o planeta para um território desconhecido, que gera efeitos disruptivos em cascata nos sistemas ambientais, sociais e econômicos.

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O nível médio do mar global atingiu um novo máximo em 2021: a taxa de aumento mais que dobrou em menos de três décadas, passando de 2,1 milímetros (mm) por ano entre 1993 e 2002 para 4,4 mm por ano entre 2013 e 2021.

Temperaturas bateram recordes regionais em várias partes do mundo. A pequena cidade de Lytton, no sudoeste do Canadá, atingiu 49,6°C em junho, quebrando o recorde nacional anterior em 4,6 °C, numa onda de calor que gerou a maior perda de massa registrada em geleiras no país. Na Itália, a temperatura na região da Sicília chegou a 48,8°C, um recorde europeu; e o Vale da Morte, na Califórnia, atingiu 54,4°C, igualando um valor semelhante ao de 2020, o mais alto registrado no mundo.

Houve também recorde de frio. O estado do Texas, nos EUA, conhecido por seus amplos desertos e fortes ondas de calor, foi coberto por uma grossa camada de gelo, com algumas regiões registrando o frio mais intenso em mais de um século.

O ano de 2021 também registrou precipitações extremas: em 20 de julho, a cidade de Zhengzhou recebeu 202 mm de chuva em uma hora, um recorde na China. Ainda em julho, a Europa Ocidental experimentou algumas das inundações mais severas já registradas no continente, que atingiram o oeste da Alemanha e o leste da Bélgica, resultando em 215 mortes e mais de US$ 20 bilhões em perdas econômicas. E houve a “bomba de umidade” no oeste do Canadá, quando um volume de chuva equivalente a um mês caiu em apenas dois dias.

Pelo terceiro ano consecutivo, ocorreram grandes incêndios florestais durante o verão na Sibéria. Na costa oeste da América do Norte, a ocorrência de fogo foi severa devido às condições recordes de seca e altas temperaturas da primavera, e em julho a fumaça dos incêndios nessa região chegou às cidades da costa leste. Na Europa, algumas regiões de França, Itália, Grécia e Turquia sofreram os piores incêndios florestais da história.

Quase no fechamento de 2021, condições meteorológicas incomuns, como ar úmido e quente em uma época do ano em que isso não é esperado, provocaram a passagem de uma série de tornados no sudeste dos EUA, que atingiram principalmente o estado de Kentucky.

E o Brasil não escapou aos eventos extremos. Chuvas persistentes acima da média na primeira metade do ano no norte da bacia amazônica levaram a inundações significativas e de longa duração na região, com o rio Negro em Manaus atingindo seu nível mais alto já registrado, com pico de 30,02 metros. Na Bahia, 51 municípios decretaram emergência por conta das fortes chuvas que atingiram a região em dezembro.

No outro extremo, uma seca considerada a maior em mais de 90 anos afetou grande parte da região subtropical da América do Sul pelo segundo ano consecutivo, incluindo grande parte do centro e sul do Brasil, além de Paraguai, Uruguai e norte da Argentina. O governo brasileiro declarou situação de escassez crítica de recursos hídricos na bacia hidrográfica do Paraná, com numerosos reservatórios nos níveis mais baixos dos últimos 20 anos, o que reduziu a produção de hidroeletricidade, levando o país à beira do colapso energético. A seca gerou também perdas agrícolas significativas, afetando o volume e a qualidade de safras como milho, cana-de-açúcar, laranja, feijão e café.

Evidentemente, nem todos esses eventos extremos podem ser relacionados às mudanças climáticas induzidas pela ação humana, mas tal incidência teria sido impossível sem o fenômeno. Nos níveis atuais de emissões globais de gases de efeito estufa, o mundo continua a caminho de exceder a meta de aquecimento de 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais estabelecida no Acordo de Paris, em 2015, para evitar os piores impactos da emergência climática.

(Revista Galileu)

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