Vida em Marte: compostos orgânicos encontrados pelo rover Curiosity podem ser um sinal

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022 às 09:47
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Selfie tirada pelo rover Curiosity Mars da Nasa. Foto: Nasa/Caltech-JPL/MSSS

Compostos orgânicos encontrados em Marte pelo rover Curiosity, da Nasa, poderiam ser sinais de vida antiga no planeta, segundo cientistas da agência espacial norte-americana. De acordo com os pesquisadores, algumas das amostras de rocha coletadas ao longo dos anos contêm compostos ricos em um tipo de carbono que aqui na Terra está associado à vida.

Trabalhando em Marte desde 2012, o rover Curiosity coletou amostras que contêm compostos orgânicos. Imagem: Outer Space – Shutterstock

No entanto, eles ressaltam que é muito cedo para saber o que gerou os intrigantes compostos. “Estamos encontrando coisas em Marte que são tentadoramente interessantes, mas realmente precisaríamos de mais evidências para dizer que identificamos sinais de vida”, disse Paul Mahaffy, que serviu como principal investigador do laboratório de Análise de Amostras em Marte (SAM) do Curiosity, até se aposentar do Goddard Space Flight Center, da Nasa, em dezembro do ano passado. “Então, estamos olhando para o que mais poderia ter causado a assinatura de carbono que estamos vendo, se não a vida”.

Rover Curiosity procura sinais de vida em Marte há 10 anos

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Em agosto de 2012, o Curiosity pousou no interior da Cratera Gale, de 154 quilômetros de largura, em Marte — em uma missão para determinar se a área poderia já ter suportado vida microbiana.

A equipe de rover logo determinou que o chão de Gale era um ambiente potencialmente habitável bilhões de anos atrás, abrigando um sistema de lago e córrego que provavelmente persistiu por milhões de anos.

No novo estudo, publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences, a equipe de pesquisa analisou 24 amostras de rocha em pó que o rover coletou com sua broca percussiva de uma variedade de locais, entre agosto de 2012 e julho de 2021. Os materiais foram analisados pelo SAM, que pode identificar e caracterizar compostos orgânicos — moléculas contendo carbono que são os blocos de construção da vida na Terra.

De acordo com o site Space.com, os cientistas descobriram que quase metade dessas amostras foram enriquecidas em carbono-12, um isótopo de carbono estável, em comparação com medições anteriores de meteoritos de Marte e da atmosfera marciana. Isótopos são versões de um elemento que contém diferentes números de nêutrons em seus núcleos atômicos. O carbono-12 tem seis nêutrons, e o carbono-13 tem sete.

Essas amostras ricas em carbono-12 vieram de cinco locais diferentes dentro da Cratera Gale, todas elas apresentavam superfícies antigas que haviam sido bem preservadas.

Na Terra, os organismos usam preferencialmente carbono-12 para seus processos metabólicos, então o enriquecimento de amostras de rochas antigas com esse isótopo é geralmente interpretado como um sinal de química biótica. “No entanto, os ciclos de carbono em Marte não são suficientemente entendidos para fazer suposições semelhantes para os achados do Planeta Vermelho”, disseram os membros da equipe de estudo.

Existem três explicações possíveis 

Os pesquisadores apresentaram três explicações possíveis para o intrigante sinal de carbono. O primeiro envolve micróbios de Marte que produzem metano, que foi então convertido em moléculas orgânicas mais complexas depois de interagir com a luz ultravioleta (UV) na atmosfera do Planeta Vermelho. Esses orgânicos maiores, então, caíram de volta ao chão e foram incorporados nas rochas que o Curiosity coletou.

“Mas reações semelhantes envolvendo luz UV e dióxido de carbono não biológico, de longe o gás mais abundante na atmosfera de Marte, também poderiam ter gerado esse resultado. Também é possível que o sistema solar tenha atravessado uma nuvem molecular gigante rica em carbono-12 há muito tempo”, disseram os pesquisadores.

“Todas as três explicações se encaixam nos dados”, declarou o líder do estudo, Christopher House, cientista da equipe Curiosity com sede na Universidade Estadual da Pensilvânia, no mesmo comunicado. “Nós simplesmente precisamos de mais dados para comprová-las ou descartá-las”.

O novo achado é especialmente intrigante por causa do enriquecimento de carbono-12, mas o Curiosity já havia detectado compostos orgânicos em Marte antes. Por exemplo, a equipe da missão relatou anteriormente a detecção de orgânicos em amostras de rocha em pó. O robô de seis rodas também passou por plumas de metano, a molécula orgânica mais simples, em várias ocasiões.

Não está claro o que está produzindo o metano gasoso de Marte, nem desde quando. Esse composto poderia ser gerado por micróbios que se metabolizam sob a superfície marciana frígida hoje. Poderia, também, ser produzido por interações subterrâneas de rocha e água quente, sem vida envolvida. Por fim, também poderia ser material antigo, produzido por organismos ou abioticamente, que estava preso no subsolo há muito tempo e escapou para a superfície.

Outros dados úteis também podem vir de outro rover de Marte — Perseverance, um robô da Nasa que pousou dentro de uma cratera diferente do planeta, em fevereiro de 2021. Ele está caçando sinais da vida antiga e coletando dezenas de amostras que serão devolvidas à Terra para análise, possivelmente em 2031.

(OLHAR DIGITAL)

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