A triste reação da sociedade diante da morte de Luís Carlos

quarta-feira, 9 de junho de 2021 às 10:32

PORTO FRANCO – A morte do jovem Luís Carlos, na última semana, levantou a discussão sobre a importância que o ser humano têm dado à vida e sobre o quanto precisamos melhorar como sociedade. Um dos aspectos que ainda estamos longe de dominar é a forma correta de tratar pessoas com transtornos emocionais e mentais, como no caso de Luís Carlos, que se suicidou em Porto Franco na última sexta-feira, 4, durante um surto psicótico.

Segundo o Centro de Cultura Negra – Negro Cosme de Imperatriz, algumas pessoas que assistiram ao jovem correndo pelas ruas da cidade durante o surto o ridicularizaram. O Centro emitiu uma nota de repúdio pedindo justiça e questionando se a polícia não foi omissa.

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NOTA ÀS AUTORIDADES DE PORTO FRANCO – MA

Na manhã desse domingo (06/06) tomamos conhecimento, por meio de diversas fontes que nos procuraram, do caso do jovem Luís Carlos, da cidade de Porto Franco – MA. Os relatos indicam que o jovem aparentava estar em surto psicótico. Pessoas próximas relatam que ele passava por um processo depressivo profundo. O jovem Luís Carlos acabou por cometer suicídio, na noite de sexta-feira (04/06), ao se jogar no Rio Tocantins. Não é comum, nem recomendado destacar por qualquer meio que seja acontecimentos dessa natureza, e não é esse nosso objetivo. Por meio desta Carta viemos solicitar explicações das autoridades de Porto Franco e do estado do Maranhã devido, ao que tudo indica, às reiteradas omissões de socorro. A vida de Luís Carlos poderia ter sido protegida. Relatos de amigos dão conta de que ele saiu às ruas completamente pelado e andou por mais de 2km até chegar à margem do rio. Durante o percurso foi filmado e ridicularizado por populares e em parte do trecho acompanhado/escoltado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF). Não há relatos, até o momento, de que a PRF tenha prestado qualquer tipo de socorro ou realizado qualquer tipo de intervenção durante o trajeto do jovem, o que culminou, possivelmente, em sua caminhada para a morte. Luís Carlos, um jovem de origem humilde, gay e preto, recém-aprovado no curso de Pedagogia da Universidade Federal do Maranhão, teve a assistência negada. Sem sombra de dúvidas, a homofobia e o racismo daqueles que, tendo condições de interferir, se omitiram frente à situação e/ou optaram pela espetacularização são também responsáveis por sua morte. E as autoridades que tomaram conhecimento da situação, mas negaram ajuda, agiram com irresponsabilidade ao não cumprirem o papel atribuído às instituições de proteger a vida e, tão logo, devem explicações a sociedade a à Justiça. Mesmo depois do acontecido, a negativa de assistência continuou. Apenas na manhã de sábado (05/06), as autoridades municipais iniciaram as buscas pelo corpo de Luís Carlos.

Diante disso, solicitamos às autoridades de Porto Franco que investiguem o caso, prestem os devidos esclarecimentos e ofereçam assistência à família do jovem. Ainda, solicitamos que o Ministério Público apure a existência de crimes e responsabilize os envolvidos, tanto populares como os agentes policiais. Não é razoável, nem aceitável que a vida seja tratada com tanta displicência. Prestamos solidariedade à família do jovem Luís Carlos, aos seus amigos e aos jovens negros que têm sido insistentemente vitimizados pelo racismo e pela homofobia.

Assinam a nota:

Centro de Cultura Negra – Negro Cosme de Imperatriz – MA (CCN-NC);

Fórum Audiovisual Negro e Indígena (FANI);

Grupo Democracia sem Racismo (GDR);

Imperatriz, 06 de junho de 2021.

(Voz do Bico)

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