
*Por Paulo Martins
Era pouco antes das seis da manhã. Enquanto eu dirigia pela Teotônio, ouvia a conversa entre meus dois filhos e dois de seus colegas. Ainda estava escuro, eu os trazia de uma festa.
Pois então, estou naquela fase da vida que buscamos filhos nas festas e passamos pix para o lanche nos finais de semana (risos).
A resenha que fizeram sobre a festa me mostrou duas coisas: os tempos mudaram, e eu estou ficando velho. Um deles disse “passei o rodo geral”. De início não entendi, pensei que se referia a limpar o piso. Mas depois de ouvir mais – como por exemplo, criticarem um dos amigos por beijar a primeira menina e ficar somente com ela o resto da noite –, desconfiei que não se tratava de limpar o chão.
Em casa, sentado no sofá, tomando uma xícara de café, pesquisei no celular: “significado de passar o rodo”. Minhas suspeitas foram confirmadas pelo Dicionário Informal:
“1 (Brasil) namorar, ficar com um número diverso de pessoas (seguido da preposição: em) – Foi para festa e passou o rodo em geral. 2 (Brasil) fazer sexo com (seguido da preposição: em) – Ela passou o rodo no vizinho do andar de cima!”
Pensei, essa juventude não respeita nada. Não usa a preposição “em” após o verbo (“passar o rodo em…”). Dizem “passar o rodo geral”, como se o verbo não fosse bitransitivo. Mas isso não vem ao caso. Quero chamar a atenção para a superficialidade nos relacionamentos.
O beijo na boca, por exemplo, para alguns psicólogos é uma forma mais eficaz de testar a compatibilidade entre dois seres que se podem cruzar para reprodução. Isso quer dizer, beijar os lábios de alguém deveria ser para ajudar a entender se a pessoa é a certa para ser o pai ou mãe dos seus filhos. Seria uma maneira de testar a compatibilidade genética e evitar erros de percurso.
Mas ao que tudo indica, esses psicólogos estão errados, as pessoas querem só “passar o rodo”, simples assim. A explicação do sociólogo Bauman parece mais aceitável, há uma necessidade de se “consumir a vida”, como fazemos com os objetos. Tudo é efêmero, não se tem mais tempo para treinamentos ou preparações.
Lembrei-me do primeiro beijo entre mim e minha esposa. Vou contar, mas na terceira pessoa, ao distanciar-me do fato, a timidez é menor (risos):
Era a madrugada de 14 julho de 1996. Eram colegas de trabalho, comemoravam o aniversário de um amigo. Estavam a sós em um dos quartos da casa. Lá de dentro, ouviam a música e as conversas que vinham de fora. “Solta o cabelo”, ele disse. Sem perguntar o porquê, ela soltou os longos cabelos de cor clara. Em seguida, ele pediu, “sente-se aqui”. Bateu com a mão na cama, indicando para ela se sentar ao seu lado. Como eram amigos, ela não viu nenhuma malícia no pedido. Passou as mãos no vestido branco, como se o desamarrotasse, em seguida se sentou.
Ele virou o rosto e a olhou nos olhos. Viu nela um olhar curioso, querendo saber o que se passava. Repentinamente, ele levou a mão direita por trás dos cabelos dela e a beijou. Assustada, ela o empurrou. Agora, nos olhos dela ele via o susto, espanto.
“Você está doido? Por que fez isso? Você tem namorada. Eu tenho namorado.”, ela disse.
Ele pediu desculpas, prometeu que nunca mais aquilo se repetiria. Por serem comprometidos, ambos concordaram em parar por ali.
Mas, como a química do beijo é o segredo para a intenção de se repetir a experiência – como afirmam os psicólogos –, não foram fortes o suficiente para cumprir a promessa. O beijo mostrou que eram compatíveis geneticamente, dois anos depois tiveram o primeiro de dois filhos.
Paulo Martins é professor, autor do livro “Vamos conversar: crônicas” (2017), mestre em Letras.
E-mail: [email protected] / Instagram: @profpaulomartinss / Youtube: Paulo Martins












