A sua vida é dos outros

segunda-feira, 20 de junho de 2022 às 08:46
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Foto: Arquivo Pessoal

*Por Leonício S. Silva

Seguidores ou perseguidores?

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Reflita um pouco antes responder. O assunto é delicado, controverso, mas é pertinente.

Muitos me chamarão de atrasado. Se for relativo a esse tema, aceito o adjetivo. Com prazer. E aceito as críticas também, desde que respeitosas. E, saiba o leitor, o intuito aqui não é tecer críticas a quem pensa diferente de mim, mas levantar e propor uma reflexão que muitas vezes ninguém se preocupa em fazer.

Recentemente, um Promotor de Justiça paraguaio começou, só começou, a viver uma nova história. Jovem, bem sucedido, casou-se com uma bela mulher e foram passar a lua-de-mel no Caribe colombiano. Lugar lindo, vida nova, tudo era só beleza. O problema é que desde a sua saída do Paraguai, todos já conheciam o roteiro da sua viagem. Divulgou nas redes sociais a pomposa cerimônia do casamento e anunciou o lugar da lua-de-mel com a nova esposa. Já no Caribe colombiano, não parava de “postar” as fotos do lugar onde estava, transmitindo em tempo quase real todos os detalhes do seu momento de felicidade. E então…… Quando menos esperava, assassinos pararam na sua frente e deram cabo da sua vida. E para o leitor entender melhor o contexto em tela, o referido Promotor era investigador austero do narcotráfico paraguaio e sul-americano. Certamente, pela atividade que exercia, não eram poucos os insatisfeitos com ele, querendo comê-lo vivo. No Paraguai, estava sempre acompanhado de uma guarda que fazia a sua proteção. Ao sair do seu país, sozinho com a nova esposa, esqueceu-se do trabalho que fazia e resolveu dividir com os outros todos os instantes da nova felicidade. O casamento e a lua-de-mel estavam sendo um conto de fadas. Mas não viveram felizes para sempre.

Também recentemente, um influencer alagoano esbanjava nas redes sociais um relógio de grife e um colar de diamantes que juntos valiam quase 3 milhões. Além de mostrar as joias, ainda anunciava o valor que valiam. Usou poucos dias. Porque quem não podia comprar joias tão caras sentiu também o desejo de tê-las para si. E na calada da noite, arrombaram o apartamento do influencer e levaram muito mais coisas valiosas. Levaram sem pedir ao dono.

São casos pontuais, esses, mas contra fatos não há argumentos. As pessoas da modernidade, pelo menos a maciça maioria, não se contentam em viver a sua vida pautadas em cima de algo tão fundamental que pode evitar muitas dores de cabeça: a sua intimidade com discrição.

A febre das “postagens” nas redes sociais virou vício, virou mal, viralizou, tornou-se algo tão corriqueiro e, para muitos tão importante, que as pessoas não se contentam mais em viver a sua vida sem que os outros saibam de cada detalhe. Parece que a felicidade está em que os outros saibam o que se come, o que se veste, o que se faz, o que se compra e para onde se vai.

As pessoas desconhecidas, das quais não se conhece a índole nem as intenções, conhecem todos os detalhes da vida e da rotina dessas pessoas. Conhecem todos os cômodos da sua casa, os móveis que possuem, as peças do guarda-roupas, a roupa nova comprada, o sapato e o perfume novos, conhecem os seus filhos, sabem o nome de cada um e em que escola e em que horário estudam, sabem até a comida que se come, o lanche da tarde, o café da manhã, enfim, pessoas desconhecidas e muitas vezes mal intencionadas conhecem cada detalhe da vida dessas pessoas, porque a vida dessas pessoas ultrapassou todos os limites da intimidade, da discrição, do cuidado e até do respeito. Sabem o momento em que elas estão na caminhada matinal ou vespertina, a academia que frequentam, o trajeto que fazem todos os dias, a igreja ou clube que frequentam. Sabem tudo, tudo nos mínimos detalhes.

É comum ouvir a frequente reclamação: “as pessoas se importam muito com a minha vida”. Mas por que o motivo da queixa? Se essas pessoas expõem o tempo todo a sua vida, o que possuem, o que fazem ou deixam de fazer, se a vida dessas pessoas é um livro aberto para conhecidos e desconhecidos, amigos e inimigos, e se todos conhecem detalhada e cotidianamente a vida dessas pessoas plantonistas das redes sociais, como ter o direito de reclamar se todos passam a “dar pitacos” nas coisas da sua vida? Isso é muito contraditório. O que é público, está sob o crivo do público.

Centenas ou milhares de pessoas sabem simultaneamente da aquisição do carro novo. Da joia nova. Do apartamento ou da casa nova. De tudo que é novo. Pessoas de diversas partes do mundo, com índoles de todas as naturezas, sabem tudo o que a pessoa tem e faz. E por onde anda. Porque os plantonistas das redes sociais não querem mais a sua vida só para si e para os mais íntimos. Querem a sua vida compartilhada com todos. E todo esse movimento que fazem diariamente nas redes sociais nada mais é do que um rastilho de pólvora que saem deixando pelos caminhos por onde passam.

Uma pessoa trabalha duro durante muito tempo, faz sacrifícios, até adquirir o tão sonhado carrão do ano. Outra pessoa não trabalha em nada, mas deseja ter o mesmo carrão. A primeira, quando o adquire, faz logo questão de que todos saibam da sua nova conquista. Todos, incluído as pessoas de bem e as de mal. O que será que ela desperta? Inspiração ou “olho gordo”?

O mal, assim como o bem, é atraído conforme as atitudes de cada um. Quando a vida de uma pessoa torna-se tão pública, torna-se também tão dos outros.

Fala-se em amigos. Mas a pergunta mais certa é: “quantos inimigos você tem nas redes sociais? Quantas pessoas das que te seguem ficam realmente felizes com a sua prosperidade? Quantas pessoas dessas veem em você um exemplo a ser seguido? Quantas se inspiram em você, e torcem para que dê tudo certo na sua vida?

Para os que creem nisso, os místicos falam em energia positiva e negativa, e que cada uma, a seu modo, influencia o ambiente em que se vive. E o que se veem são mais projetos pessoais dando errado que certo. Porque desde o primeiro pensamento já se tornam públicos, já se tornam propriedade de todos. Poucos crescem calados. E como diz o sábio pensamento: “Uma árvore cresce em silêncio, mas a sua queda é ruidosa.

Essas modinhas da modernidade das redes sociais usurpam valores, fragilizam a segurança e rasgam a intimidade do indivíduo que se expõe o tempo todo. Essa exposição contínua traz, a longo ou curto prazo, muito mais prejuízos que benefícios. Os conteúdos das redes sociais são muito mais banalidades do que utilidades. Ser banal é moda. Pouco se encontra de útil e agradável nas redes sociais. E quando se pensa diferente e não se vai na ondinha da modernidade, recebe-se a pecha de antiquado. Então, se se viver de forma mais discreta, mais segura, mais reservada, mais familiar e íntima é ser antiquado, eu sou um deles, e muita gente ainda o é. Mas esses antiquados bem fazem a si mesmos e aos seus.

Obviamente, circunstancialmente, nada ser contra a alguma publicidade. Mostrar o resultado de algum bom trabalho realizado, fazer repercutir um bom exemplo, um comportamento inspirador e construtivo… Enfim, haverá sempre uma circunstância que valerá a pena tornar-se pública, para que possa semear algo de interessante e edificador para a comunidade. Todavia, deve-se repensar até que ponto a sua vida e a da sua família, e o seu patrimônio, devem ser expostos e compartilhados com pessoas conhecidas e desconhecidas.

Afinal, na vida é sempre assim. Atraem-se menos seguidores e mais perseguidores.

Leonício S. Silva

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