Diretas já, mas não agora

terça-feira, 30 de maio de 2017 às 16:15
205 Visualizações

*Por Bruno Carlos Medeiros

Publicidade

O frenesi deflagrado com a iminência da concretização de uma previsão constitucional expressa, que reserva ao Congresso Nacional a prerrogativa de eleger o titular do Poder Executivo Federal no caso de vacância sucedida nos dois últimos anos do mandato da chapa eleita, se origina da concepção, igualmente constitucional, de que “todo o poder emana do povo”.

Embora se possa contestar as consequências desta máxima – tendo a fazê-lo, escorado pela qualidade sempre duvidosa dos escolhidos para as cadeiras do parlamento -, é inegável que o intento de efetivá-la tem a sua dose de boa intenção.

O apoio à tal reivindicação, contudo, camufla o fito de manter intacto um sistema secular, podre e de frutos infinitos para os que miram a coisa pública a fim de sugá-la.

O que se convencionou denominar de “esquerda”, termo originalmente a salvo das distorções e superficialidades que hoje cravejam as coordenadas ideológicas, tem Lula como o seu representante máximo. E é ele que, talvez por uma questão de conjuntura momentânea, encabeça as pesquisas de intenção de votos para as eleições de 2018.

Há motivos, portanto, para o burburinho de seus súditos – e ele, ao lado dos desatinos disparados pelos que se posicionam na trincheira oposta, transformam ingênuas paixões políticas em um pântano ainda mais calamitoso para o projeto, ora adormecido, de construção de uma nação minimamente promissora, independentemente do timoneiro.

O distúrbio que nos assola, afinal, é o sistema, as coalizões e os interesses isentos de republicanismo. É a tríade que, além de naturalmente expurgar os que a ela não se adaptam, seduz e eterniza em sua estrutura os mais hábeis em manter girando suas apodrecidas engrenagens, em uma espécie de círculo vicioso que não para de intoxicar uma sociedade que, historicamente, tanto sofre com a má conduta de seus representantes.

A Constituição destina ao Congresso, instituído por meio da mesma ferramenta que ora se conclama, a escolha do novo comandante, em caso de queda do atual mandatário. É a negação do propósito de um rito valendo-se do mesmo procedimento. O preço para que uma medida inócua, contrária à Constituição, seja colocada em prática custaria aos cofres públicos, segundo o TSE, exorbitantes 800 milhões. E todos nós sabemos a serventia de uma cifra dessa magnitude caso revertida para o benefício de seus verdadeiros donos.

É pertinente que se reflita que existe algo de muito controverso, escuso e indefensável em um sistema no qual chapas de candidatos em tese tão antagônicos em seus desígnios políticos, como Dilma e Temer – e cuja lógica se estende por todas as esferas do poder -, sejam uma regra de sobrevivência.

O sistema político que nos rege não admite que boas ações sejam praticadas sem que, nas estradas das inúteis burocracias, não se enfraqueçam pela fome dos pedágios. Seja lá o responsável por conduzi-lo.

*Por Bruno Carlos Medeiros – jornalista, escritor e estudante de Direito.

-- Publicidade --

Comentários no Facebook