
*Por Paulo Palmares
São tantos os nomes e tantas as possibilidades que, na política, tudo o que é combinado hoje pode ser completamente diferente amanhã. A incerteza é quase uma regra do jogo.
Essa percepção remete a um conhecido trecho do poema Perguntas de um Operário que Lê, do dramaturgo e poeta alemão Bertolt Brecht (1898–1956), que em algumas traduções traz os versos:
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César venceu os gauleses.
Não tinha ao menos um general ao seu lado?
Faço uso dessas provocações para lançar algumas indagações sobre o atual cenário político do Tocantins, especialmente ao observar, à distância, os nomes que se colocam como postulantes ao governo do Estado neste ano.
Comecemos pela senadora Maria Auxiliadora Seabra Rezende, conhecida como Dorinha Seabra (UB). Neste segundo ensaio conduzido pelo governador Wanderlei Barbosa (Republicanos), Dorinha entra no salão de baile como a noiva oficial, escolhida para tentar conquistar o Palácio Araguaia José Wilson Siqueira Campos. A “oficialização” extra oficial de seu nome ocorreu após intensa negociação política em Brasília, que culminou na devolução do comando do Estado ao governador, depois de noventa dias afastado da gestão por decisão judicial.
Mulher e professora por formação, Dorinha construiu sua trajetória parlamentar com forte atuação na área da educação — com destaque para o ensino integral e a assistência estudantil — além da defesa das mulheres. No entanto, como possível candidata ao governo, ainda não conseguiu cair nas graças nem do núcleo político mais próximo ao governador, nem do eleitorado mais atento às questões estaduais. Sua imagem é frequentemente interpretada como pouco atrativa do ponto de vista eleitoral, sem o carisma ou a personalidade marcante que costuma impulsionar grandes campanhas. Assim, até aqui, não tem despertado entusiasmo significativo entre os eleitores tocantinenses.
Paradoxalmente, é ela quem reúne, no momento, os melhores generais para a guerra. Além do próprio governador Wanderlei Barbosa — talvez o mais estrelado deles — conta com o senador Eduardo Gomes (PL), o “Gigantão”, o deputado federal Carlos Gaguim (UB) e, na região do Bico do Papagaio, com o deputado estadual Jair Farias (UB), que almeja uma vaga na Câmara Federal, além do prefeito de Axixá, Auri-Wulange, de olho em uma das 24 cadeiras da Assembleia Legislativa.
Sob esse prisma, pode-se afirmar que Dorinha concentra, até agora, a maior força política organizada, com estrutura, disciplina e prontidão para a missão de chegar ao Palácio Araguaia.
Antes mesmo do rufar oficial dos tambores dessa festa, há mais de um ano, o deputado federal Alexandre Guimarães (MDB) anunciou o nome do presidente da Assembleia Legislativa do Tocantins (Aleto), deputado estadual Amélio Cayres, como o preferido para ser levado ao altar. Teve início, então, o primeiro ensaio.
Cayres foi apresentado em todos os cantos do salão, levado a encontros estratégicos e apresentado aos possíveis convidados de honra, numa tentativa clara de dar brilho à celebração. Mas noivado longo, como se sabe, quase sempre traz problemas — e trouxe. De preferido, tudo indica que Cayres passou a preterido. A ausência do governador Wanderlei Barbosa na abertura oficial do ano legislativo de 2026, na terça-feira, dia 3, foi interpretada como um sinal evidente desse cisma político, abrindo espaço para múltiplas leituras.
Caso esteja, de fato, fora da festa palaciana, distante dos lustres e das pompas que o colocariam como protagonista do espetáculo cívico, dois caminhos se desenham para o presidente da Aleto. Ou se curva à nova configuração, assumindo um papel coadjuvante, ou reúne sua trupe e passa a cantar em outro palco.
Se optar por esse segundo caminho, chegando à planície sozinho ou acompanhado de seu propalado exército assembleiano, Amélio Cayres certamente encontrará braços abertos. Nomes como Vicentinho Alves (PP), Laurez Moreira (PSD), Ataíde Oliveira (Novo) e outros tantos estão ávidos por reforços.
E entre esses possíveis aliados, com quem seria o abraço mais caloroso? Arrisco dizer que seria com o deputado federal Vicentinho Júnior. O motivo está em uma longa relação de amizade e lealdade política que entrelaça as famílias Cayres e Alves. O ex-senador Vicente Alves e Antônio Cayres de Almeida, o conhecido “Antônio do Bar”, foram prefeitos, entre 1989 e 1992, de Porto Nacional e Augustinópolis, respectivamente.
A partir daí, construiu-se não apenas uma parceria política, mas uma amizade sólida que já ultrapassa três décadas. Os Alves sempre contaram com o apoio político dos Cayres na região do Bico do Papagaio, enquanto os Cayres sempre encontraram respaldo dos Alves em Palmas e Brasília, inclusive em demandas de caráter pessoal.
Diante desse histórico, é razoável afirmar que, entre todas as pontes possíveis entre Amélio Cayres e os demais postulantes ao governo do Estado, a mais sólida — e talvez a mais confiável — seja, sem dúvida, a que o liga ao deputado federal Vicentinho Júnior.
Essa configuração ou possível rearranjo revela o desejo deliberado dos grupos de oposição, de empurrar a disputa para um segundo turno, momento em que as forças políticas tendem a se reorganizar, redesenhando estratégias, alianças e correlações de poder. É nesse intervalo que habilidades políticas são testadas, discursos são ajustados e promessas ganham novas roupagens.
Ainda estamos longe de saber quem, acompanhado por um séquito de generais e seguido por um cortejo de pobres mortais em busca de louros, atravessará os arcos do Palácio Araguaia Governador José Wilson Siqueira Campos. A história, como sempre, não se decide apenas nos palanques, mas nos bastidores, nas cozinhas improvisadas das festas eleitorais e nas contas silenciosamente pagas por quem raramente aparece nas fotos oficiais.
E, retomando o poema, permanecem as perguntas incômodas: em cada página, celebra-se uma vitória — mas quem realmente a construiu? A cada quatro anos, ergue-se a imagem de um grande homem ou de uma grande mulher — mas quem sustenta esse enredo? Quem paga as despesas, quem carrega o peso das escolhas e quem apenas assiste ao desfile do poder?
São muitas histórias sobrepostas, tantas quantas são as perguntas que insistem em ficar sem resposta. Talvez porque, mais do que eleger vencedores, o processo político revele, eleição após eleição, as permanentes desigualdades entre quem governa, quem decide e quem apenas espera.
*Paulo Palmares é bacharel em direito, empresário e diretor responsável pelo portal Voz do Bico
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