
*Por Francisco Sulo
Sérgio Moro abandonou a caravela Bolsonariana que já sucumbe à tempestade há algum tempo. Detalhe para a natureza da tempestade — teve como epicentro o próprio navio.
O anúncio do pedido de demissão, que ocorre enquanto o ex-juiz plaina sobre bons ares, tem todo o potencial de implodir ainda mais o que resta do governo e impulsionar Moro ao Palácio do Planalto nas próximas eleições presidenciais. Moralistas de plantão já compartilham a hashtag #Moro2022.
Sem perder tempo no momento com a nau desgovernada, rumemos para algumas considerações sobre Sérgio Moro. Comecemos pela hipótese da integridade do ex-juiz. Ter abandonado o barco alegando interferência do presidente na autonomia da PF sinaliza integridade e compromisso com a ética institucional. Por outro lado, pesa o lucro político da atitude. Mas consideremos a hipótese da integridade de Moro como algo factível e o que isso de fato representa para uma sociedade desigual como o Brasil. Isso nos leva para a consideração sobre a integridade.
O caráter dos sujeitos, normalmente considerado bom ou ruim conforme mais vinculado ou não ao berço, às tradições e às instituições tradicionais, não é algo absoluto ou vinculado a algum bem supremo. O caráter é conformado, corroído e construído conforme os reclames mais gerais das sociedade de que fazemos parte. A nossa supervalorização do equilíbrio das relações de mercado, do caixa do governo e dos lucros empresariais, em prejuízo do bem-estar das pessoas é um claro exemplo de quais valores norteiam o nosso caráter atualmente. E isso se deve ao modo como o modo de produção capitalista interage e submete nossas subjetividades atualmente (cf Richard Sennett, A corrosão do caráter).
Dito isto, podemos afirmar sem medo de errar que muitos sujeitos moralistas estão disposto a fazer sacrifícios em nomes de seus valores, como presumivelmente Moro tenha feito, mas a integridade do ex-juiz se move conforme o seu modelo ideal de sociedade política, pautado na moralidade institucional e nas livres relações de mercados, não tendo nenhum compromisso com o desfazimento da desigualdade estrutural que perpassa a sociedade nos mais diversos aspectos.
O pragmatismo de Moro (todos somos pragmáticos) sempre vai lhe pedir licença moral para impedir tudo o que ameace sua ilusão de sociedade política ideal, como, por exemplo, a permanência da esquerda no poder, ainda que pra isso precise atropelar processos investigativos e condenatórios e ajudar a eleger um lunático excêntrico e fundamentalista.
Dado, pois, o perfil facilmente elaborável do indivíduo político Sérgio Moro, fica fácil saber que ele não tem compromisso com a redução das desigualdades sociais via implementação de políticas sociais e de distribuição de renda e que seu zelo pela lei e pela ordem sempre se transmutará em ações que obstruirão os verdadeiros processos sociais emancipatórios — não o vimos em ação contra qualquer ação de injustiça social, política ou criminal de forma significativa quando os injustiçados foram pobres, negros, feministas etc nem contra a gestão abusiva do MEC contra o direito das universidades, desrespeitadas que estão desde o início do desgoverno Bolsonaro.
Cumpre que Moro também seja julgado pelo perfil de quem a partir de agora já o idolatra como líder máximo e já compartilha sua hashtag de presidenciável: a maior parte dos bolsominions que a partir de agora tentarão se dissociar do presidente fracassado; o MBL, braço radical do liberalismo no Brasil com perfil também moralista e golpista e, por fim, todos os oportunistas políticos de plantão que enxergam nele uma escada para eleições vitoriosas a partir desse ano.
Enfim, Moro não me convence.
Francisco Sulo é funcionário público e historiador.












