Na ferida narcísica

segunda-feira, 1 de agosto de 2022 às 14:44
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Paulo Martins, professor e escritor. – Arquivo Pessoal

*Por Paulo Martins

“Peço desde já nossa separação: não posso mais…”, disse Capitu ao Bentinho, pouco antes de partir para a Europa e nunca mais voltar. Bentinho, personagem de Machado de Assis, no livro Dom Casmurro, ficou sozinho na casa, com suas dores, amarguras e revoltas.

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Somente quem um dia foi abandonado sabe a dor que é. Imagino que poucas coisas na vida doem tanto. Isso é o que se confirma na narrativa machadiana. Após ser deixado pela esposa, por quem se apaixonou ainda na adolescência, Bentinho ficou desnorteado, sentiu-se desmoralizado, tornou-se casmurro e vingativo.

Capitu colocou o ponto final. Não pediu um tempo. Essa história de “pedir um tempo” não passa de um eufemismo, é uma tentativa frustrada de abrandar a dor causada no outro. Na realidade, é uma outra maneira de dizer “Chega, de agora em diante não quero mais estar ao seu lado”.

Na obra Dom Casmurro, o pedido de separação parte de Capitu. Fora das páginas fictícias, a situação não é tão diferente, pois retrata bem a realidade brasileira, já que, em grande parte, as mulheres são as que tomam a iniciativa da separação. Conforme pesquisas realizadas por especialistas em relacionamentos; em 80% dos divórcios, a decisão parte da mulher.

Embora boa parte dos homens não perceba, em um relacionamento as mulheres são sobrecarregadas. Em quase todos os lares, o cuidar dos filhos, os afazeres domésticos, e até mesmo a responsabilidade pela conciliação dos desentendimentos familiares, ficam a cargo da mulher. Para o marido fica a posse do carro, o trabalho mais valorizado, o sair e voltar a qualquer hora.

Tais regalias talvez sejam a razão do homem sofrer tanto quando a mulher o deixa. Fomos criados como príncipes. A maneira a qual uma mãe olha para um filho o faz sentir especial, o máximo. Não raro, demoramos demais para perceber que não somos “a última coca cola gelada do deserto”. O modelo familiar patriarcal, implantado com a colonização, erroneamente nos ensinou desde o início que temos de ter privilégios.

Em um certo dia, a esposa pensa em tudo que fez pela família e se pergunta onde o marido estava. Em uma situação assim, é impossível não se questionar por que se esforçar tanto quando não se recebe nada, ou quase nada, em troca.

Diante de uma rejeição, deveríamos ser racionais, entender que isso faz parte da vida, que as pessoas não são obrigadas a viver ao nosso lado se não quiserem. O fato de alguém não nos escolher, não significa que essa pessoa seja desleal ou que sejamos o problema.

Talvez, ao longo do tempo, essa pessoa simplesmente percebeu que não somos a outra parte que a completa. Compreender, também não significa que não vamos sofrer, que não teremos dores. Chorar não torna ninguém fraco ou covarde. O pranto é bálsamo para a alma, é o escape da dor.

De forma louvável, Santiago diz: “Sim, eu me faço de forte, mas já chorei no meu quarto, em silêncio, a porta fechada, travesseiro no rosto, chorei por dentro, sofri.

Porém, o que não se deve fazer é o que Bentinho fez no livro, e que muitos homens fazem na vida: sem provas, em seu plano de vingança, ele acusa Capitu de ser infiel e procura de todas as formas desmoralizá-la perante à sociedade.

Por fim, ele declara: “Mas sabe o que tudo isso resultou; nada, é preciso aprender a crescer, viver, ser gente grande e enfrentar os próprios problemas.” Um homem amadurece com o abandono. Precisa ser atingido na ferida narcísica. Se não aprender, pode parar na bebida, se tornar violento e amargurado, como o Bentinho. O abandono é o teste do amadurecimento, para confirmar se você já é “gente grande”.

Paulo Martins é professor, escritor, autor do livro “Vamos conversar: crônicas” (2017) e mestre em Letras. E-mail: [email protected] / Instagram: @profpaulo_martins / Youtube: Paulo Martins

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