O Brasil tem como fazer uma nova história

sexta-feira, 6 de maio de 2022 às 09:23
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*Por Roberto Claudio

Será que vamos ter a necessidade de construir uma nova fundação para o nosso país? Começar do zero um novo conceito de nação que tem na sua base um alicerce multirracial, desigual e elitista?

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Começo este texto com uma indagação totalmente envolta numa deliberada provocação, porque as respostas que buscamos, há mais de 500 anos, desde a chegada lusitana em nossa costa, revelam-se estar, cada vez mais, distantes do nosso horizonte de nação.

É como se buscássemos alcançar a nossa própria sombra que se nos afasta a cada passo.

Quando pensamos que estamos a consolidar os fundamentos mais elementares de nossa incipiente democracia, como aconteceu com essa Nova República, pós-ditadura militar, alguns contundentes solavancos nos “rebolam” na evidente constatação de que não engatamos nem a primeira etapa de um país que se pretende democrático.

Entenda-se, aqui, que democracia tem extensão “latu sensu” de definição, onde fica possível identificar valores e referências de respeito amplo e irrestrito do direito à vida.

Por que será que nos afastamos tanto da definição primária de democracia, no que afere, por exemplo, nossa Carta Magna de 88?

Nossa Constituição assegura que todos os brasileiros têm direito à educação, saúde, trabalho, previdência social, lazer, segurança, proteção à maternidade e à infância e assistência, em especial os desamparados.

Nossa lei maior tem em sua essência a finalidade de garantir a melhoria das condições de vida dos menos favorecidos, concretizando assim, a igualdade social.

Mas por que vivemos tão distante desse conceito de sociedade e nação?

Por que não temos, ainda, uma democracia que se assente em seu conceito básico definido doutrinariamente como o regime que se afirma a partir dos três princípios fundamentais: da maioria, do principio da igualdade e do principio da liberdade?

E aqui quero centrar a reflexão no princípio da liberdade a partir das condições objetivas de quem é livre pela conquista do posto de trabalho, pela capacidade de gerar seu próprio sustento e dos seus, pela excelência da vida em comunidade com os recursos que conquista.

Os dados nada animadores que nos foram revelados ultimamente apontam que temos, hoje, em algumas unidades da Federação, notadamente nas regiões menos favorecidas, como o nosso Nordeste, um número maior de famílias inscritas em programas assistenciais do que o número de carteiras assinadas.

Pelo menos 8,6 milhões de famílias nordestinas estão inscritas no programa do governo de auxílio social enquanto o número de carteiras assinadas na região chega a cerca de 6,6 milhões.

Quero concordar com Gonzaga Júnior (Gonzaguinha) que, em “Um homem também chora (Guerreiro Menino)”, dizia que “sem o seu trabalho, o homem não tem honra. Sem a sua honra, se morre, se mata. Não dá pra ser feliz”.

E o que tem sido feito para mudar esse estado de coisa. Absolutamente nada. Como bem observou o sociólogo italiano Domenico de Masi, autor de “O Ócio Criativo”, a pauta em nosso Brasil, na atualidade, é diversionista. Nosso país tem outro temas escalados pelos ocupantes do governo central.

“Terraplanismo, resistência à vacinação e a medidas básicas de segurança sanitária, pautas morais entendidas como questões de Estado, descaso com o meio ambiente, tudo isso remete a um passado que considerávamos longínquo.

Quando entramos nesse tipo de debate entre nós, ou com as “autoridades”, é como se voltássemos da pós-graduação às primeiras letras do curso elementar. Somos forçados a recapitular consensos estabelecidos há décadas, como se nada tivéssemos aprendido”, afirmou o sociólogo italiano, coberto de razão.

Com esse diagnóstico, não temos como nos animar pensando numa possível guinada em sentido oposto e indo ao encontro dos reais interesses da nação.

E qual o resultado prático dessa incapacidade gerencial?

A total inexistência de políticas públicas que possam reconfigurar nosso retrato de nação. Assim, continuamos a condenar pretos, pobres e periféricos ao descaso e ao papel de vítimas preferenciais da violência nas cidades e nos campos brasileiros.

Se em 2017, o Atlas da Violência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelava que mais de 75,5% das vítimas de homicídio eram jovens e negros, imagina como estamos agora, após a traumática passagem pelo Planalto Central de uma trupe que, nem de longe, sinalizou com ações comprometidas com a mudança desse quadro.

Mais uma vez, sinalizo com esperança para a oportunidade que teremos neste ano, com a chegada das eleições.

Estamos de volta à luta, assumimos, de novo, nosso papel de guerreiros que

“Precisam de um descanso

Precisam de um remanso

Precisam de um sono

Que os tornem refeitos”.

Vamos à batalha!!!

Roberto Claudio Rodrigues Bezerra foi por duas vezes (2013 a 2020) prefeito de Fortaleza (CE), cidade na qual é o presidente do Diretório Municipal do PDT. É médico sanitarista, com PhD em Saúde Pública pela Universidade do Arizona.

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