O dia seguinte de Boçalnaro (A crônica cômica)

sexta-feira, 10 de setembro de 2021 às 15:45
Leonicio S. Silva. – Foto: Arquivo Pessoal

*Por Leonicio S. Silva

FATO UM – OS PRÓSES?

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Sete de Setembro.

Para o evento ficar mais típico e mais atrativo, faltaram alguns carros na rua anunciando “Hoje tem espetáculo? Tem sim, senhor”. O animador estava a postos, entusiasmado, otimista e destemido para as cenas circenses hilárias que o mundo inteiro estava ansiosamente esperando. Só não estava devidamente caracterizado. Faltaram-lhe, no mínimo, um macacão de bolhinhas e um nariz vermelho. Como assim, vermelho? Não. Jamais! Apesar de ser a cor tradicional, nada impede que seja de outra cor. Vermelho é cor decadente.

O carro não anunciou. Mas o público estava lá. Só que não foi em oceanos, apenas mares. Se esperava mais, muito mais. As arquibancadas não ficaram abarrotadas, como era de ser. E isso fez o animador repensar o evento, e então pode se convencer de que não passou de um espetáculo hilário e obsoleto. E absurdo. Então, restou-lhe dar alguns passos atrás e fechar as cortinas. E lamentar. Trêmulo. Tresmalhado. E todos voltaram para as suas casas e esperaram, sofregamente, o anúncio estardalhado de novos espetáculos.
Mas ocorre que o dia seguinte chegou. E com ele, a hora de varrer o lixo deixado nas avenidas dos olhos do mundo. Chegou a hora de realizar a colheita das sementes podres que até chegaram a brotar em ramos parasitos, mas faltou chuva para molhar a terra. E os brotos desbrotaram. E não vieram os frutos. E o seu semblante empalideceu. E foi preciso aviltar-se.

FATO DOIS – AS VOZES

E os Sanchos Panças não gostaram de jeito nenhum da descoragem do seu lúcido Cavaleiro. E reagiram: “Como pode, Onipotente Mitidade, fazer um disparate desses? Isso é traição. O Senhor é um Judas. Nós viemos dos nossos lares, de todos os lugares, de todos os cantos cantando glória, gastando suor, e erguemos cartazes para mostrar ao mundo, rasgamos as vozes para gritar a todos, crédulos de que estávamos realizando o ato mais heroico das nossas vidas, e de que as nossas pautas eram uma certeza matemática de dois mais dois quatro, e agora o Senhor, que logo logo seria o 13º do Monte Olimpo (Opa, 13º não. Pula para o 14º), o Senhor nos vem agora com uma apunhalada dessas? Seu… Seu… Seu…!!! Grita seu grito, Galvão. Aquele de 94, abraçado com Pelé e Arnaldo.
Porque nós acreditávamos piamente que o Senhor ia mandar todas as tropas para arrastar da Corte aquelezinhos 10. Só 10. Porque um de lá é seu, é nosso. E mandar açoitá-los em praça pública para aprenderem a lição. A lição de que não se pode atentar contra um Messias. Nós, que acreditávamos mesmo que depois disso o Senhor ia mandar interditar as Duas Casas, deixando lá entrar somente o seu primogênito e os escolares da sua cartilha. E nós também. Seriam casas muito engraçadas.

Nós, que acreditávamos tão crentemente que o Senhor ia rasgar e atear fogo nos picotes de papel que restassem dessa Cartinha que não foi elaborada com a sua tão doutrinada participação, e está toda toda distorcida do seu douto entendimento de poder, de governo e de democracia, e por isso não lhe serve e nem serve a nós. E que, após isso, o Senhor mesmo, com a sua sofisticada caneta-tinteiro, sem a ajuda de ninguém, nem dessezinho Temer a quem o Senhor foi pedir arrego (O senhor Temeu. E Tremeu) ia redigir, votar e promulgar, tudo ao mesmo tempo, a sua e a nossa Nova Constituição Golpistrática do Brasil.

(Preâmbulo: Eu, representante Máximo e Mítico do povo brasileiro, reunido comigo mesmo, em ato só, instituo um novo Estado Sei Lá de Direito, destinado a assegurar, principiamente, a minha permanência e a dos meus no trono, devolvendo ao povo uma espécie de novo AI-5, e desassegurando todas as liberdades contrárias ao meu consentimento, e tudo o que mais aqui vai escrito, porra! Promulgo-a sob a Minha proteção).

Nós, súditos esclarecidos política e civilmente, acreditávamos devotamente que em 22 íamos poder trocar as cédulas vermelhas pelas verde-amarelas, de acordo com a pretensão do Senhor, que tem todas as provas irrefutáveis de que esse sistema é uma fraude. Incluindo 2018;

Nós, que acreditávamos em…. em… em… Enfim, no que o Senhor, homem tão profundamente moderno e sabido, nos catequisa. Agora cá estamos nós, contrariaaaados, desacreditaaaados e desesperançaaaados. E chacoteados. Nos resta agora ser bonzinhos e esperar em dezembro o trenó pousar sobre nossos telhados. Será que o bom velhinho vem trajado de vermelho? Lascou-se!!

FATO TRÊS – OS NÓSES

Sucede que choveu uma chuva caudalosa sobre o rastilho, e a faísca apagou-se antes de lamber o barril. “Boom” só das coisas que se comem. E de outras também cotidianas. Indo assim como vai, amanhã será preciso comprar bicicletas. Será preciso rachar lenha e usar trempes. Será preciso morrer mais dessa virulenta coisa que por aí anda. Porque essas são as nossas verdadeiras chagas. Essas são as nossas bruxas, e o fogo deveria, sim, devorar a elas.

Porque não é esse o mundo que o mundo quer. Porque o tempo passa, as cabeças mudam, os olhos miram diferente, os sonhos nascem de outras cores, sem os raios de sombras do passado. As portas e janelas se abriram, o vento entrou e lavou a casa dos detritos do tempo. E novas terras foram lavradas e novas sementes, semeadas.

Porque o mundo inteiro não está mais em um só lugar. Está em todos os lugares, simultaneamente. E tudo que acontece agora, agora também ecoa em todos os cantos. O mundo é pequeno. Só não podemos nós nos apequenar. E muitos não aceitam mais o inaceitável, não engolem o engolível, não se aviltam tão caladamente para o amém amém amém.

Porque os países autocráticos são poucos, e são aqueles que têm pouca influência nos negócios globais. E o Brasil, não, não é um deles. O Brasil é vasto. E não é pasto. E as portas para o mundo não se podem fechar, a miséria não pode assolar, a fome, matar. E a nação não pode implodir, sufocando no azedume do próprio arroto.

Porque não se pode rasgar uma Carta Magna, que veio trazendo um pouco mais de mudança, um pouco mais de esperança, um pouco mais de sonhamento. Ela, que edifica não as afundações, e sim as fundações de como ser e viver sendo gente. E não boi no campo. Se ela não é plena nos fatos, culpa nossa mesmo, pelo menos tem algo de plenitude no papel. E sob suas asas podemos nos esconder dos predadores que veem logo ali, cheios de ódio e de ódio, querendo nos aniquilar.

Porque não se pode passar o trator sobre os poderes instituídos, que equilibram os pesos na balança das coisas e procuram, mesmo que em teoria, igualar as pessoas. Se alguns acham ruim com eles, o que não seria sem eles? Porque não existe no mundo democrático um só poder que manda e desmanda, que anda e desanda, e que seja justo e limpo. Se o poder de tantos tantas vezes já enferma, o poder todo de um só, enterra.
E não se pode nunca matar um povo. O tempo passa e o povo vai ficando. Fazendo as suas travessias. E travessuras.

O povo é imorrível.

Leonicio S. Silva é agente da Polícia Civil em Augustinópolis.

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