
*Por Francisco Sulo
Recentemente rivalizou nas redes sociais e importantes jornais do país uma reportagem de 1999, de O Estado de São Paulo, em que Bolsonaro saúda a ascensão de Hugo Chávez ao poder na Venezuela. À época, o ultraconservador e agora pré-candidato a presidente chegava a imaginar a ascensão de Chávez como uma esperança para a América Latina e expressava ainda o desejo de que a filosofia do venezuelano chegasse até ao Brasil.
Diante da exposição desse pequeno recorte do passado de Bolsonaro muita gente, inclusive opositores, tentam difundir a ideia de que em algum momento o pré-candidato compartilhou dos ideais comunistas. Nem mesmo o fato de já ter votado em Lula (em 2002, no segundo turno) em algum momento fez dele um comunista. Na verdade isso é explicável por outra via, a da afinidade com o totalitarismo, com o punho de ferro, a centralização da administração.
A ânsia totalitarista de Bolsonaro pode ser confirmada a partir de sua afirmação de que “ele [Chávez] vai fazer o que os militares fizeram no Brasil em 1964, com muito mais força”.
De fato não se trata de algo impensável que um ultraconservador encontre afinidades com um totalitarista do espectro político-ideológico antagônico (mesmo que Chávez ainda não demonstrasse à época seu perfil autocrático). No livro Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política, Noberto Bobbio, eminente filósofo político italiano, afirma que “a díade extremismo-moderantismo não coincide com a díade direita-esquerda.” Noutras palavras, o critério de distinção entre moderados e extremistas não é o mesmo que distingue direita e esquerda e aqueles se fazem presentes em ambos os espectros políticos (direita e esquerda), a ponto de extremistas de esquerda e de direita vez por outra entrarem em acordo sobre pontos políticos específicos. Ainda segundo Bobbio “um extremista de esquerda e um extremista de direita têm em comum a antidemocracia (um ódio, senão um amor).” Não admiraria que Bolsonaro admirasse Hitler, Mussolini ou Stalin, caso tivesse sido contemporâneo político deles.
Um outro aspecto que ainda se revela no extremista é a veia anti-iluminista, de acordo com Bobbio. E isso explica muito sobre os números de Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto para presidente. As ideias antiprogressistas do pré-candidato à presidência, somadas às soluções fáceis que apresenta para resolver os problemas do pais, são um prato cheio para aqueles que não conseguem fazer uma leitura bem elaborada do que ocorre atualmente no país. Não à toa recentemente fomos apontados como a segunda nação que mais desconhece a realidade.
Vamos torcer para que outros fatores ajudem a tornar o jogo mais dinâmico e mais propício a uma saída segura.












