Que diabo de ‘povo brasileiro’ é esse que foi às ruas ‘autorizar’ ditadura?

quarta-feira, 8 de setembro de 2021 às 18:28

A bolha fanática do bolsonarismo é enorme, mas está longe de representar sequer 1/3 dos brasileiros

Manifestação a favor de Bolsonaro em São Paulo. – Foto: Divulgação/ Reprodução

*Por Ricardo Kertzman

Jair Bolsonaro, o verdugo do Planalto, vive repetindo que fará o que o ‘povo brasileiro’ quiser que ele faça. Será mesmo, hein?

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Assisti, com o devido cuidado e atenção, além de uma dose monumental de paciência, a diversos vídeos das manifestações de ontem.

Havia muita gente em Brasília e em São Paulo? Opa! Havia, sim. Bastante. Raras vezes se viu manifestações dessa magnitude em prol de um político.

E, justiça seja feita, exceto por um ou outro caso isolado, tudo transcorreu na mais perfeita ordem e paz, ainda que as reivindicações pedissem o contrário.

POVO? QUE POVO?

Anotem aí: 51% dos brasileiros são pretos ou pardos; 25% dos brasileiros são jovens entre 15 e 29 anos; no mínimo, 30% dos eleitores votaram no PT em todas as eleições passadas.

Pergunto: onde estava essa gente toda ontem? Porque nas ruas, eu não a vi. Ao contrário. Como de costume, eu vi brancos, de meia idade, bem vestidos e bem nutridos.

É esse o ‘povo brasileiro’ em que Bolsonaro aposta e justifica sua sanha golpista criminosa? Se for, é bom tirar a moto da chuva. O povo brasileiro está longe de estar representado ali.

Aliás, no Rio de Janeiro, onde menos de 25 mil pessoas foram a Copacabana, um fato curioso: onde estavam os 500 mil eleitores do deputado Jair Bolsonaro? Em casa? Na praia?

BOLHA FANÁTICA, NADA MAIS

Jamais confiei em político que diz representar o tal povo, estar ao lado do povo, lutar pelo povo e blá blá blá. Muito menos político profissional, que vive há décadas do… povo!

Bolsonaro é só mais um populista safado que infesta a política nacional. Ele e sua família são usurpadores da boa fé e da ingenuidade do ‘povo’. Vivem de rachadinhas, pô!

Que diabo de ‘povo’ aceitaria ser subjugado e tiranizado por um ditador de quinta categoria? Que raio de ‘povo’ autoriza, fora do voto, um governante a dar fim à democracia?

Aquela gente toda que foi às ruas ontem, de ‘povo brasileiro’ não tem nada. É apenas uma horda de fanáticos em busca de sangue por suas frustrações e rancores cotidianos.

BOLSONAZISMO

Jamais compreendi como o povo alemão permitiu a Hitler fazer tudo o que fez. Ontem, ao ver milhares de fanáticos gritando ‘eu autorizo’, pude entender um pouco.

Sim, bolsonarismo, lulismo, nazismo, fascismo e toda sorte de movimentos políticos de massa, centrados em mitos messiânicos, são semelhantes, ainda que diferentes.

Hitler culpava os judeus pelos males da Alemanha. Bolsonaro culpa o STF. Hitler pregava o extermínio dos judeus. Bolsonaro prega o fechamento do Supremo, para dizer o mínimo.

Se Moraes, Lula, Barroso ou qualquer outro inimigo imaginário do devoto da cloroquina aparecesse na Avenida Paulista ontem, qual seria seu destino senão o extermínio

CONSERVADORES, MAS DEMOCRATAS

O povo brasileiro é conservador, sim. O povo brasileiro é religioso, sim. O povo brasileiro é avesso à política, sim. Mas o povo brasileiro é democrata! Ao menos 75% dele.

Bolsonaro apostou nas ruas como fiadoras de sua psicopatia autocrata, mas se deu mal. A única coisa que pode comemorar – e muito! – é ainda ser o ‘mito’ de tanta gente.

Só que isso não será capaz de, nessa ordem, 1) levar-lhe à reeleição; 2) impedir que seja julgado e condenado por seus inúmeros crimes; e 3) impedir sua prisão, ainda que demore.

Numa democracia, amparada por um legítimo Estado de Direito, pode-se muito, mas não pode-se tudo. O amigão do Queiroz foi muito além do permitido, ficou só e irá pagar. 

Assim como ocorreu com o meliante de São Bernardo, Bolsonaro será largado – e relegado – a uma meia dúzia de fiéis inexpressivos, ignorantes e sem nenhum poder.

Não há na história recente, salvo as ditaduras em vigor, um tirano que não tenha encontrado uma forca ou a prisão como destino. O maníaco do tratamento precoce não será exceção.

Ricardo Kertzman

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