Racismo como forma de manutenção do Capitalismo

sábado, 1 de julho de 2017 às 10:13
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*Por Luis Fernando Veríssimo

Pesquisas chamam atenção para o racismo institucional onde a discriminação é disfarçada nas entrelinhas.

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Segundo dados do IBGE, os negros ganham 42% menos do que os brancos. São maioria entre a população mais pobre: 75%. E entre os desempregados também: 63%.

Contudo, a explicação para as atuais desigualdades está focada no indivíduo. No capitalismo foi preciso atribuir aos indivíduos a necessidade de talento e de crença na dedicação para gerar a concorrência entre os que trabalham e justificar a desigualdade social. A burguesia afirma que todos somos iguais dentro da diversidade, mas se uns são ricos e outros são pobres é por responsabilidade de cada um.

Com muita frequência, tenta-se naturalizar a desigualdade de oportunidades, que penalizam o povo negro, com argumentações atribuídas à defasagem escolar. O que não se observa, contudo, é que tal defasagem é atributo também da própria dinâmica da exclusão imposta pelo sistema imperante.

Além dessa desigualdade, a sociedade capitalista também cria hierarquias no interior da própria classe trabalhadora. E o preconceito contra a população negra é, nesse caso, necessário para reforçar isso. Ao dividir a classe trabalhadora em parcelas socialmente desvalorizadas a burguesia insiste em submeter setores da classe para intensificar ainda mais os níveis de exploração.

E ao desvalorizar a população negra da classe trabalhadora, a burguesia pode impor a piora de suas condições de vida e dificultar seu acesso ao mercado de trabalho. Assim, ao inferiorizar essa parcela da classe pode pagar menores salários, não conceder ou cortar direitos, manter o exército de reservas e garantir que o Estado se omita diante da garantia dos serviços públicos básicos.

Ademais, a divisão no interior do mercado de trabalho brasileiro regulou inclusive os espaços adequados para cada tipo de raça. Segundo o PED 2013 “A questão racial interfere para designar lugares para trabalhadores negros na estrutura produtiva, passíveis de serem traduzidos por situações de discriminação […]”. A isso se deve o motivo dos negros serem os primeiros a sofrerem as mazelas da desigualdade pois sua maior ocupação está em setores que exigem menor qualificação profissional, tais como setores da construção civil e domésticos.

A exploração econômica se combina com a opressão social e com o preconceito se alimentam mutuamente. Foram socialmente construídos e têm servido para humilhar e massacrar parcelas inteiras da classe trabalhadora. Combatê-los na luta é condição indispensável para a construção da sociedade socialista.

No entanto, as lutas imediatas pela incorporação da população negra no mercado de trabalho formal e pelo acesso a serviços públicos, em pleno século 21, ainda têm passado pela reivindicação da aplicação de políticas afirmativas.(compensação pelos anos de escravidão) como as cotas (válidas para a possibilidade de acesso a universidade e ainda não aplicável para o mercado de trabalho e nem para os programas de moradia). Ainda assim, são lutas que passam longe da organização da população negra da classe trabalhadora nas periferias do Brasil e de suas necessidades, ficando restritas a pequenos grupo os organizados.

Outra marca característica da manutenção do capital via preconceito se baseia nos salários. Segundo estudo divulgado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), em 2013, o negro brasileiro recebia em média salários 36,11% menores que os brancos. (Fonte: Estadão 13/11/2013). A coisa é ainda pior para a mulher negra que ganha um terço do salário dos brancos e metade do salário de um homem negro. Não obstante na maioria das vezes, as mulheres negras ocupam o setor de serviços domésticos cuja porcentagem é de 19,2% comparada a 10,6% as mulheres não negras, ou seja o dobro. Assim, a relação que o negro tem no mercado de trabalho revela indícios de problemas sociais subjacentes a própria dinâmica das relações econômicas atuais.

Contudo venho retificar o termo mais apropriado para definir as condições de exclusão e segregação, poderíamos certamente adjetiva-lo de racismo. A configuração terminológica entre preconceito e discriminação nada mais é do que eufemismo, elegante e dissimulado para deixarmos de assumir o quanto o ranço histórico da escravidão encontra-se prenhe em nossa consciência coletiva e práxis cultural persistente.

O racismo é erro estratégico numa sociedade capitalista, onde na medida em que se diminui a potencialidade econômica e sua competitividade nacional, subtrai-se uma gama enorme de consumidores do mercado.

Outrossim, pode-se entender o racismo como meio de formação do chamado exército de reserva, e por último seria terrivelmente a preservação do mercado de trabalho apenas para o iguais em etnia, esse é o chamado risco zero ante ao risco da concorrência laborativa.

Por fim, o racismo é um ato de covardia humanitária e de desonestidade intelectual em não enxergarmos como iguais sob todas as nuances para além da melanina. Se percebe na intenção deliberada em negar ou não possibilitar o exercício de direitos constituídos em razão da cor da pele.

Negar ou apoiar a discriminação entre negros e brancos no mercado de trabalho é considerar a legislação pífia e fantasiosa.

“Nenhum racismo é justificável, mas o ressentimento dos negros é. Construiu-se durante todos os anos em que a última nação do mundo a acabar com a escravatura continuou na prática o que o tinha abolido no papel”

Luis Fernando Veríssimo, escritor, humorista, cartunista, tradutor, roteirista de televisão, autor de teatro e romancista bissexto. Já foi publicitário e revisor de jornal. É ainda músico, tendo tocado saxofone em alguns conjuntos.

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