São Sebastião e o Apartheid brasileiro – Parte I

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023 às 15:42
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Foto: Arquivo pessoal

*Por Angelo Cavalcante

A ocupação européia disso e que hoje é a África do Sul se iniciou por volta, mais ou menos, do século XVII.

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Os chegantes e ocupantes eram, em sua maioria, corajosos e astutos colonizadores holandeses; os assim denominados “bôeres”.

Nos intermédios dos séculos XVIII e XIX, houve intensa e renhida beligerância entre holandeses e britânicos, é claro, por toda essa rica e fértil região.

Os holandeses levaram a pior e… A Inglaterra, principal potência militar do período, logra consolidar sua vontade sobre toda essa vasta área já no início do século XX.

Esse padrão de colonização foi, tal qual todos as demais e que apeteceram na referida quadra histórica, orientado pela permanente e incessante exploração dos múltiplos recursos naturais da África do Sul e, por conseguinte, na brutal e destrutiva submissão das populações nativas, sobretudo, a partir do genocídio da escravidão.

Nesse mesmissimo período do jugo anglo-holandês, sem demoras ou titubeios, um conjunto racional, coerente e sistematizado de efetivas práticas e dispositivos de segregação, apartação e discriminação da gente negra se estabelece sem peias ou vergonhas e efetivamente, se consolida na África do Sul.

Como consequência e na resistência praticamente nula e inexistente a esses dispositivos, nessa altura, já jurídicos; em 1910, os ingleses criam a União Sul-Africana e, desse modo, a pequena e miúda parcela de gente branca e de legítima ascendência holandesa ou britânica se ajunta para a conformação de um tal tipo de poder somente visto em tiranias, despotismos ou em assumidos regimes absolutistas a fim, é claro, do pleno e efetivo controle dos negros sul-africanos.

Foi justamente em tal contexto que desponta o famigerado e assassino Partido Nacional, uma agremiação política constituída exclusivamente por brancos holandeses ou seus descendentes e praticantes fervorosos e entusiasmados do calvinismo.

Como esperado…

…Políticas de Estado de caráter racista e segregacionista se estabelecem aos borbotões por todo o país mas o dito ” Apartheid” só irá se efetivar, de fato, de direito e às expensas de muito sangue negro derramado nos anos de 1940.

Nesse período, a África do Sul passava por transformações econômicas profundas em função, principalmente, da Segunda Guerra Mundial.

O envio de tropas sul-africanas constituídas, sobretudo, por jovens brancos para os campos de batalha abriu inúmeras oportunidades de trabalho para os negros em suas cidades.

Acontece que o racismo vigente impedia-os expressamente de atuar em áreas urbanas exceto com expressa autorização e sempre, obviamente, em atividades de muito baixa especialização; ou seja… Trabalho braçal!

O esperado aconteceu e os núcleos urbanos de África do Sul não conseguiram gerir minimamente a imensa e incontida multidão de negros e que se transferiam em grandes levas para a vida urbana.

Pois bem…

…O estopim explode para esse que foi dos mais degradantes e absurdos eventos políticos desde o “boom” do fascismo… No experimento de viver em cidades, os negros começam, iniciam sua efetiva organização política contra o oceano de formas racistas e que flui livre, pleno e em torrentes no país.

Esse aspecto – esse dado e preciso aspecto – da organização de negros e negras do sul africano causou, conforme esperado, ampla e dura retomada reacionária e sem precedentes em todo o continente africano.

A ameaçadora possibilidade de organização e politização dos negros fez com que parcela de brancos, de pronto, reagisse e dessa maneira, passam a apoiar com estruturas, fundos e uma militância ensandecida e histriônica o jurássico Partido Nacional, legenda governada pelo fanático pastor Daniel François Malan.

Por obsequio… Não se esqueçam desse nome!

O religioso e que, reparem, tinha o estranho hábito de enxergar entidades demoniacas, inclusive, em bebês negros e recém-nascidos é de enorme popularidade por entre os brancos do país.

Pois bem… O pastor Malan e sua flâmula partidária, em nome de “Deus, da Pátria e da Família” (isso não é estranho aos brasileiros!) pregavam abertamente o assim batizado ” Apartheid” (termo que, no seu geral, quer dizer “separação” no dialeto “africânder”).

A militância do clérigo era desavergonhadamente, por ampliar, intensificar e endurecer toda a legislação de segregação da África do Sul para empatar e barrar direitos elementares e básicos do povo negro e, dessa forma, frenar e bloquear qualquer remota possibilidade de avanço político para essa gente.

Não por menos, o Malan sugeria em textos, discursos e em plenárias que a relação única e possível para com os negros estava destacadamente dada no século XVII com os primeiros colonos europeus. Segundo Malan:
” era o século XVII ou não haveria civilização “.

Bom…

…No ano da graça de 1948, acontecem eleições gerais na África do Sul, como previsto, o Partido Nacional garante a maioria das vagas na Casa de Leis e, o pior…

…Imaginem quem irá virar Primeiro-Ministro da já conturbada e efervescente África do Sul?

Sim… O exótico, primitivo e supremacista Daniel François Malan e, a partir desse cenário, se estabelece das piores, mais horrendas e detestáveis formas políticas e que o mundo moderno já presenciou… O Regime do Apartheid.

Mas, como a HISTÓRIA sempre é absolutamente imprevisível, intempestiva e caprichosa, um rapaz dos profundos de África do Sul; um jovem negro de olhos mansos, serenos e rebeldes assiste a tudo com atenção, critério e muita coragem.

Seu nome, à época, pouco dito, falado e conhecido é MANDELA…

NELSON MANDELA e tudo, absolutamente tudo, irá mudar!

(Continua!)

Angelo Cavalcante – Economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Itumbiara.

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