Tempos de calamidade

sexta-feira, 27 de março de 2020 às 11:16
Leonicio Silva. Foto: Aquivo pessoal.

*Por Leonicio S. Silva

Em tempos de caos, não significa que é o fim. Muitas vezes o caos é só um tempo para o recomeço. É das ruínas que ressurgem os fortes, os fortalecidos. E a história tem nos mostrado isso com nitidez.

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É só lermos as páginas da história, escritas nos tempos de calamidade. Uma das maiores mortandades, uma das maiores ruínas humanas ocorreu na Segunda Grande Guerra. E para ficar só no exemplo, saibamos que Alemanha e Japão ficaram quase que totalmente devastados pela morte.

Foram milhões de corpos lançados nas sepulturas, apodrecidos nos campos de guerra, queimados nos fogos do ódio. Foram milhões de famílias privadas da paz e da felicidade. Foram milhões de casas e estabelecimentos despedaçados pelos estrondos das bombas, pelo fogo da guerra. E passada a destruição maciça e o caos miserável, aqueles que ficaram reinventaram a vida, refizeram os sonhos, reiniciaram a jornada.

E hoje Alemanha e Japão são grandes nações, têm um grande povo, escrevem novas linhas nas páginas da história humana. O caos não foi o fim. Nem nunca será.

Em tempos de calamidade, é preciso escalar outros mirantes, olhar os montes e planícies, e mirar a vida de outra perspectiva. É preciso enxergar os caminhos e veredas, e decidir em qual caminhar, aonde chegar. Um novo olhar para o horizonte. É isso que edifica uma nova pessoa, que estabelece um novo povo. É isso que levanta os caídos.

A atual pandemia é uma grande lição: somos fracos diante dos fenômenos imprevisíveis, dos eventos catastróficos. Não estamos preparados para o que vem de cima, das imensas distâncias do espaço, e nem preparados para o que vem de dentro, das profundezas escuras do invisível. Pode ser um imenso asteroide em rota de colisão com a terra, ou pode ser um minúsculo vírus em rota de colisão com a vida. Qualquer um dos dois vai nos afetar, e vai nos afetar imensamente, trazendo atrás de si as sombras da morte.

Mas na imensidão dos caminhos, há sempre aqueles que nos possibilitam chegar a um novo lugar, diferente, onde seja possível recomeçar. E recomeçar fortalecidos. Basta levarmos conosco os alicerces da fé, da esperança, da coragem e da solidariedade. Porque a fortaleza dos grandes edifícios sustenta-se nos alicerces sólidos.

A humanidade já enfrentou grandes epidemias, enormes calamidades. Essa não é a primeira. E nem será a derradeira. Mas venceu, e vencerá sempre. Basta que as pessoas se unam e se amem.

É nesses tempos que o sentimento de humanidade deve se fortalecer, e enfraquecer-se o sentimento da cobiça e da desonestidade. É quando os mais fortes devem solidarizar-se com os mais fracos. É quando devem sucumbir a arrogância, a indiferença, a disputa e a insensatez.

É quando os gestores públicos devem efetivar o verdadeiro sentido da politica, que é a prática do bem comum ao povo. E desatar as amarras da discordância ideológica, dos interesses profanos, das atitudes cruentas.

É nesse momento que o povo conhece verdadeiramente os políticos que tem. E se neles pode confiar e depositar um fiapo de esperança. E caso não possa, a tragédia será ainda maior, com danos talvez irreversíveis. Às vezes, é dentro de nós mesmos que estão os bichos mais virulentos. Dentro de nós mesmos as calamidades, as pestes aterradoras. Essas são as mais perigosas e catastróficas. Se não vencer as calamidades de dentro, será impossível vencer as de fora.

Então, nesse momento de medo e de incertezas, só nos resta buscar um ponto de equilíbrio entre a razão e o amor. O amor despido das vestes da soberba, o amor lavado das nódoas da intransigência. A razão para guiar o que sentimos. O amor para guiar o que fazemos. E assim, ajudar os mais pobres, os mais fracos, os mais desesperados. Afinal, esse é o verdadeiro sentido de ser gente, de ser cristão. De ser humano.

Não é tempo de guerra com armas. É tempo de guerra com almas. A alma da fraternidade e do bem. E em meio às batalhas possamos juntar os pedaços de esperança caídos no chão, e com eles erguer grandes estruturas, sólidas, resistentes às intempéries das tragédias naturais, e mais ainda das tragédias da alma. Porque são essas que disseminam os mais violentos vírus.

Leonicio S. Silva é agente da Polícia Civil em Augustinópolis.

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