Vamos comprar fuzil

sábado, 28 de agosto de 2021 às 08:30
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Foto: Arquivo pessoal

*Por Leonicio S. Silva

Nesta sexta-feira (27) , lembrei-me do que dizia meu padrasto, quando eu ainda era criança: “Escola não enche a barriga de ninguém. O que enche é roça“. Analfabeto, ele, em todos os sentidos. Estudei por teimosia da minha mãe e determinação própria. Hoje nem tem onde mais fazer uma roça.

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Esse pensamento ainda deve permear o entendimento de muitos homens do nosso tempo. Os do meio político, principalmente. Afinal, a educação sempre foi tratada com menosprezo, enquanto deveria sê-lo como prioridade.

Mas lembrei-me disso por analogia. Porque uma fala de hoje, apesar de tratar de outro tema, foi bem similar ao que eu ouvia em tempos de criança. Uma fala de ninguém mais do que o nosso Presidente da República. Uma fala que retumba a grande mentalidade do nosso chefe maior da República. Disse, o sábio presidente, que “todo mundo tem que comprar fuzil, pois, povo armado jamais será escravizado”. E, de quebra, ainda chamou de “idiota” quem diz que tem que comprar feijão.

O Presidente está certo. Para que comprar feijão? A população não precisa comer. Precisa é se armar.

Na verdade, isso é uma grande falta de empatia. Se antes o Brasil já passava fome, no decurso desse tempo de pandemia é que a fome aumentou desmesuradamente. Quantas famílias, Brasil afora, passando fome!!! Quantas crianças chorando, sofrendo, morrendo de fome!!! E piorando, piorando cada vez mais. Não bastasse o desemprego, a falta da mixaria de todo dia para comprar pão e leite, que é um dos mais lastimáveis resultados da pandemia assolante, ainda tem a questão do descontrole desencabrestado da inflação. Que não para de subir. E do jeito que vai, não é de se duvidar que em breve o salário mínimo não seja suficiente para comprar a cesta básica. Parece exagero? Vivemos em tempos de exageros. Não nos assustemos se isso chegar a acontecer. Porque quase já não dá: comida, gás de cozinha, tarifa de energia, gasolina… tudo desembestou assustadoramente. Não se sabe onde vai parar.

Ora. E quantos pais e mães de família nem um salário mínimo recebe? Já não podem nem comprar feijão. Danem-se? É o que parece. O fundamental é comprar fuzil. É melhor um fuzil na mão do que um prato de feijão na mesa. Vamos andar pelas ruas com um fuzil em punho. Vamos andar pelas praças com nossos filhos e fazendo selfes com um fuzil erguido. Vamos dar aos jovens um fuzil para que o levem para as salas de aula. Vamos dançar forró com um fuzil balançando no pescoço. Vamos fazer amor com um fuzil embaixo do travesseiro. Fuzil é essencial. Fuzil é a moda. Para que possamos combater a escravidão. “População armada jamais será escravizada”.

Eu, na minha farta ignorância, pensava que escola era melhor para desescravizar. E que feijão era bom para matar a fome. Mas me enganei. Hoje aprendi mais uma útil e importante lição com nosso Presidente. Temos que ter fuzil. Feijão, não.
E como o dia 07 de setembro está chegando aí, vamos a Brasília. Vamos, todos nós. Só não nos esqueçamos de levar o fuzil. Vamos tomar a Praça dos Três Poderes, em multidão, vestidos de verde-amarelo, cara pintada nas cores da bandeira nacional, erguer o fuzil para o alto e gritar: “Mito, mito, mito”. Porque só com uma sabedoria dessas para ser um verdadeiro mito. Uma inteligência enorme, um sábio jeito de governança, um jeito manso de aceitar as opiniões contrárias…, enfim.

Não precisamos do Congresso. Não precisamos do Supremo. Não precisamos da harmonia entre os poderes. Não precisamos da Constituição. Não precisamos da democracia. Precisamos, é claro, do AI-5. Precisamos, mesmo, é do Bolsonaro. Afinal, ele sempre dizia, em período de campanha: “Brasil acima de todos, (D)Eus acima de tudo”. Acho que só não tirava o “d”, para não assustar tanto. Quem quer pegar a galinha joga milho.
O Brasil não tem problemas a resolver. Na Amazônia não tem desmatamento. No Pantanal e no cerrado não tem queimadas. Os satélites estão cegos. Precisam usar óculos. Os meios de comunicação estão doidos. Precisam usar ética. Não existe coronavírus. Os hospitais não estão vazios. Os túmulos não estão vagos. E não tem, nos lares, panela vazia. E nem fome na barriga das crianças.

Vamos guardar as panelas, os pratos. Porque não precisamos mais comprar feijão. Quem puder, junte suas economias, quebrem os porquinhos, um pouco daqui, outro dali, e vamos comprar um fuzil. Povo armado, povo sem escravidão.
Hoje me lembrei do meu padrasto. Aquele homem lá do começo do texto. Bolsonaro fez-me lembrar dele. Bolsonaro é meu padrasto quando eu era criança.

Leonicio S. Silva é agente da Polícia Civil em Augustinópolis.

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