Vamos conversar sobre violência política de gênero?

quinta-feira, 16 de setembro de 2021 às 08:56
Imagem: Reprodução.

*Por Michelle Castro de Araujo

Na data de ontem, infelizmente foi amplamente divulgado um lamentável episódio de violência política de gênero em que a senadora Eliziane Gama foi interrompida diversas vezes durante votação na CCJ.

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Até pouco tempo, embora eu concordasse sem saber com a definição, eu também desconhecia os estudos e a nomenclatura dada, até que por incrível que possa parecer, conversando com um colega advogado, ele me falou a respeito da violência política de gênero.

“A violência política de gênero pode ser definida, segundo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, como a agressão física, psicológica, econômica, simbólica ou sexual contra a mulher, com a finalidade de impedir ou restringir o acesso e exercício de funções públicas e/ou induzi-la a tomar decisões contrárias à sua vontade”.

Sabe-se que existe em nosso país um esforço a fim de aumentar a participação feminina na política e nos cargos de liderança, contudo, a baixa representatividade feminina pode ser explicada pelas desigualdades de gêneros existentes em nossa sociedade de forma cultural.

“Entre os fatores de desigualdade que afetam a participação política das mulheres está a violência de gênero. Isso significa que, para além das barreiras históricas para se eleger, quando as mulheres chegam ao poder elas ainda enfrentam muitas dificuldades para manter os cargos conquistados – simplesmente por serem mulheres”.**

Muitas vezes as mulheres são julgadas por sua aparência, ou porque são novas demais, ou porque são mais experientes, ou porque são antenadas na moda, ou porque são desligadas da moda, ou porque são loiras, ou porque são negras, ou porque são gordas, ou por sua orientação sexual.

Pode parecer exagero, porém a título de exemplo nas eleições municipais de 2016, uma candidata a prefeita de uma cidade no interior do Piauí foi chamada de “boneca” por seus adversários porque era aparentemente vaidosa, com o objetivo de passar ao eleitor uma imagem de futilidade. A desastrosa tentativa de rebaixamento não deu certo e parte da população começou a levar bonecas para os eventos políticos e ela foi eleita com alta aprovação popular e posteriormente reeleita nas eleições de 2020.

Situações como essas infelizmente são corriqueiras e a violência política de gênero se apresenta de diversas formas:

– Especialmente na política partidária, as mulheres são atacadas e ameaçadas no ambiente virtual.

– Acontece na maioria dos casos não como violência física, mas como intimidações, esvaziamentos, ofensas e dúvidas sobre o potencial e a capacidade femininos.

– Desigualdades sobre repasses do fundo partidário.

– Interrupções frequentes de falas, como o ocorrido ontem com a senadora Eliziane;

– E em casos extremos situações de assédio moral e sexual, como o noticiado contra a deputada estadual paulista Isa Penna, assediada por um colega durante sessão plenária naquela Casa Legislativa.

Como se sabe, um dos maiores direitos conquistados pelas mulheres foi o sufrágio universal, que configura o direito ao voto e à participação política conferido a todos os membros de uma sociedade. Sabe-se que em alguns países tal direito foi implementado no início do Século XX.

Isso quer dizer que a cento e poucos anos atrás as mulheres não possuíam a capacidade de votar e serem votadas.

Contudo, penso que hoje a nossa causa seja não apenas a luta pela ocupação dos espaços de poder, porém também seja para que as mulheres permaneçam neles.

Atrevo-me a dizer que parte das mulheres saem do cenário político porque preferem afastar-se desse ambiente inflamado e repleto de contendas e vaidades.

Infelizmente a violência política de gênero é praticada por homens e mulheres, a mulher muitas vezes é descrita como emotiva, fraca, excessivamente sensível, julgamentos que não são atribuídos ao sexo masculino.

Por fim, deixo aqui minhas considerações sobre um tema tão relevante! Desejo que a atual geração pense a respeito, que as futuras propiciem um melhor cenário para que as mulheres cheguem e se mantenham no poder, e que se elas desejarem também sair dele, que isso não seja confundido com incapacidade, porque como diz aquela máxima, “Lugar de mulher é aonde ela quiser estar”, seja em casa, na construção de um lar ou seja pilotando um avião.

*Michelle Castro de Araujo é advogada e vice-presidente da OAB Subseção de Taguatinga-DF.

**BRITO, Thaís. O que é violência política de gênero. politize.com, maio/2021. Disponível em: https://www.politize.com.br/violencia-política-de-genero/ Acesso em: 14, de setembro de 2021 .

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