Doação de órgãos cai no Pará durante pandemia

terça-feira, 16 de novembro de 2021 às 11:32
Doação de órgãos está em fase de retomada no Pará mas números ainda são insuficientes para suprir demanda — Foto: Ascom/HCGV

A doação de órgãos no Pará teve uma queda de 80% em 2020, de acordo com a Central de Transplantes da Secretaria de Estado de Saúde Pública. Em 2019, o estado registrou 20 doadores efetivos de órgãos e 136 de córnea. Já em 2020, esses números caíram, respectivamente, para quatro e 36, caracterizando uma paralisação quase completa dos transplantes no Pará.

A coordenadora da Central de Transplantes, Ierecê Miranda, diz que a demanda durante a pandemia fez com que profissionais fossem realocados, além do contexto ter sido muito doloroso, o que impactou na redução dos números de doações.

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“Agora estamos vendo uma retomada lenta, que começou em novembro do ano passado. Mas o que ocorreu foi que praticamente todos os membros das comissões de transplante foram destacados para atuar no combate à pandemia. E de um modo geral as pessoas também ainda estão retraídas, porque foram muitas mortes, muitas perdas com a Covid”, diz Ierecê.

No Pará há uma rede credenciada de hospitais que atua junto ao trabalho de captação de órgãos realizado pelas comissões intra-hospitalares. O trabalho de captação depende diretamente da abordagem das famílias, e para isto, existem equipes qualificadas para isto.

O coordenador da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos do Hospital Ophir Loyola (HOL), Jair Graim, diz que todos os membros da comissão passam por treinamento realizado pela Comissão Estadual de Transplante (CET), vinculada ao Sistema Nacional de Transplante, do Ministério da Saúde.

“A função da Comissão é a busca ativa. Todos os dias visita diversas clínicas e setores de urgência e emergência do hospital para identificar possíveis doadores. No Centro de Terapia Intensiva, por exemplo, atuamos junto às equipes para que abram protocolo de morte encefálica, se ocorrer. Também somos acionados por essas clínicas e pelo próprio banco de olhos, em caso de provável doador”, explica Jair Graim.

É decisiva a sensibilidade na hora de abordar as famílias que estão em uma situação de perda. “Falamos da importância da doação, perguntamos se há interesse no gesto. Se a resposta é positiva, acionamos as equipes de captação e transplante, a fim de facilitar e fazer o processo correr da maneira mais célere possível. A aceitação ainda não ocorre dentro do esperado. Às vezes, por fatores religiosos; outras vezes alegam que a pessoa que perdeu a vida não era favorável à doação, e outros fatores menores”, relata o médico.

Toda essa movimentação gera relatórios anuais, informando o que foi captado e o que foi doado mês a mês. No HOL, por se tratar de um hospital oncológico, a possibilidade de captação diminui e que acaba restrita basicamente às córneas. A pandemia de Covid-19 afetou diretamente esse trabalho, já que não se sabe os riscos de transplantar órgãos e tecidos de quem morreu de Covid-19. Apesar do cenário mais controlado da pandemia com o avanço da vacinação, os transplantes ainda ocorrem em número bem menor.

Tipos de transplantes no Pará

Atualmente, o Pará realiza transplante de rim, tecidos oculares (córnea e esclera) e medula óssea em três hospitais em Belém; um em Santarém, na região Oeste, e outro em Redenção, no Sul do estado.

A captação de órgãos e tecidos ocorre principalmente em Belém e Santarém, no Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência, em Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém, e os hospitais Regional do Baixo Amazonas e Municipal de Santarém, instituições que mais fazem doação de múltiplos órgãos.

Já o Hospital Ophir Loyola, o Instituto Médico Legal Renato Chaves (IML) e o Hospital Pronto Socorro Municipal Mário Pinotti, todos na capital, são os locais que mais efetivam doação de córneas.

A coordenadora do setor de transplantes confirma que o Pará ainda “engatinha” na cultura da doação de órgãos, por isso é preciso sempre informar aos familiares da pessoa falecida, com o máximo de clareza, sobre todos os quadros.

“Desde quando é identificada, mesmo antes da abertura do protocolo, a suspeita da morte encefálica, a família deve ser informada sobre tudo isso. É preciso explicar que se trata de um processo de quatro etapas, com médicos diferentes e validação da CET. Isso é importante para que haja o entendimento de que é algo irreversível, para que não haja dúvidas”, reforça Ierecê.

Palestras e campanhas de conscientização direcionadas à população também são necessárias, no entendimento da coordenadora. A decisão final pela doação é sempre da família, e por isso Ierecê recomenda que se expresse em vida o desejo de doação, para que essa decisão possa ser tomada da melhor forma possível.

“Quando as pessoas têm as informações corretas, inclusive de que há muitas pessoas na fila do transplante, que por vezes morrem esperando uma doação que não chega no momento certo, ficam mais sensibilizadas e doam mais. Sabemos que o paraense é solidário. O que falta é a informação correta para essa mudança de cultura. Os profissionais de saúde também precisam ser capacitados para que esse trabalho possa ser feito. Quando houver um trabalho educativo com a população e profissionais, com certeza teremos uma mudança de cenários”, avalia.

(G1 PARÁ)

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