
*Por Paulo Palmares
A frase acima e a que encerra este texto são atribuídas ao escritor James Freeman Clarke, e, em especial a que intitula este texto, sintetiza um contraste fundamental entre dois tipos de lideranças: aquela voltada ao efêmero – a vitória eleitoral –, e outra voltada ao perene – o bem-estar de gerações vindouras. Infelizmente, a realidade brasileira, especialmente em regiões como o Bico do Papagaio, não é diferente no estado como um todo e creia-se em todo Brasil, está repleta de políticos que, quando falam reservadamente, demonstram que seu maior objetivo é manter ou conquistar o poder, garantir a próxima eleição. Raramente se escuta sobre como formar pessoas tecnicamente qualificadas, transformando-as socialmente e economicamente, discussão ampla de como fomentar a industrialização, ou como transformar uma região com imenso potencial em polo de desenvolvimento.
Com a lupa principalmente sobre o Bico do papagaio, apesar de sua importância geográfica e potencial econômico, a região tem obtido poucos ganhos concretos ao longo dos anos em termos de desenvolvimento real. Eleições de vereadores, prefeitos, deputados estaduais e federal, senadores e governadores pouco tem se revertido em benefícios reais para a população local. Mesmo conquistas pontuais, como a instalação de um campus da Unitins com vários cursos, entre os quais o de medicina e algumas obras físicas, acabam sendo usadas mais como bandeiras eleitorais do que como políticas efetivas de transformação social e regional.
Como morador na região há mais de trinta anos vejo que temos inúmeros potenciais desperdiçados. O Bico do Papagaio, como disse o ex-secretário de agricultura do Tocantins (janeiro de 1999 a fevereiro de 2001), Jalbas Manduca, pode ser uma “nova Mesopotâmia, se encontra entre dois rios que não são o Eufrates e o tigre, mas o Tocantins e o Araguaia”. Ou seja: Possui sol o ano inteiro, recursos naturais abundantes: solo fértil, rios generosos, paisagens naturais que poderiam movimentar turismo, agricultura, pesca, piscicultura, turismo ecológico, praias, cachoeiras, lagos. Ainda assim, a economia permanece baseada em emprego público, subemprego, pequena agricultura de subsistência, trabalho informal, comércios e pequenas indústrias, graças a determinação de sua gente e de jovens e determinados empresários de várias cidades da região.
O que foi feito de Projetos como o Sampaio? — que previa irrigação de mais de mil hectares, com plantio de arroz, milho, soja, hortaliças, fruticultura — para não dizer que se acabou em nada, várias famílias, com as bênçãos de político locais, se apossaram de pequenos lotes, onde plantam arroz, feijão, mandioca e outras culturas de subsistência.
Escolhas que definem futuro
Quando lideranças políticas se reúnem reservadamente, isto tenho testemunhado, é comum ver planos e conversas centradas nas próximas urnas: arquitetação de alianças políticas, obras visíveis ou eleitoreira, distribuição de favores. São estratégias de curto prazo, que garantem visibilidade imediata, votos, mas frequentemente negligenciam o que de fato transforma uma sociedade: educação de qualidade, capacitação técnica, infraestrutura de base, diversificação econômica. Estas últimas são difíceis, demandam planejamento de longo período, visão colaborativa, coragem para investir hoje e colher amanhã — raramente atraem holofotes em campanha.
Um estadista, em contraste, olha para além: pensa em um sistema de ensino que forme técnicos competentes, apoio e incentivo ao setor produtivo, em parcerias com as inúmeras variantes do setor privado, pensa em logística, em transporte, em escoamento da produção, em incentivos não apenas fiscais, mas de capacitação, pesquisa, inovação.
Não resta dúvidas que uma grande variedade de entidades, tanto governamentais quanto não governamentais, pode atuar em parceria no desenvolvimento regional. A colaboração entre esses atores é fundamental para enfrentar as complexidades do tema e impulsionar o crescimento econômico e social da região; em termos de capacitação, pesquisa, inovação temos na região o Instituto Federal do Tocantins (IFTO), a Unitins, Sebrae e no estado outras entidades que podem ser parceiras em um projeto de desenvolvimento econômico e social para o Bico do Papagaio capitaneados por governos municipal e estadual, empresários e líderes locais.
Caminhos possíveis para uma virada
Para que o Bico do Papagaio deixe de ser eternamente marginalizado do desenvolvimento regional e nacional, e se torne efetivamente um polo industrial/regional capaz de abastecer o Norte e Nordeste do país, algumas medidas seriam fundamentais:
- Capacitação técnica: Instituir centros técnicos, parceria com as faculdades local, cursos de formação profissional alinhados às necessidades locais — piscicultura, agroindústria, processamento de pescado, laticínios, culinária local, turismo ecológico. Pessoas com habilidades específicas poderão aproveitar oportunidades e gerar valor agregado no local.
- Industrialização e agroindustrialização: Aproveitar o Projeto Sampaio, incentivar usinas de beneficiamento, frigoríficos, pequenas indústrias de alimentos (defumados, embutidos), laticínios, plantas de embalagem e conservação de alimentos. A região poderia prover matéria-prima e também processar localmente, agregando mais valor e gerando empregos.
- Infraestrutura: Melhorar estradas, transporte (vicinais especialmente), acessos aos rios, eletrificação, energia renovável, logística de escoamento — tudo isso reduz custos, torna viável investimentos privados.
- Turismo sustentável: Potencial enorme para turismo ecológico, pesca esportiva, praias fluviais, cachoeiras, turismo rural. São atrativos naturais que, bem explorados, com respeito ao meio ambiente e com envolvimento da comunidade local, podem gerar renda consistente.
- Políticas públicas de longo prazo: Plano de desenvolvimento regional que não se altere a cada eleição. Orçamentos plurianuais, compromisso político com continuidade, participação popular para definir prioridades reais.
- Gestão transparente e compromisso ético: Líderes que priorizem a geração de valor para a população, não só em termos imediatos, mas estruturais. Que não vejam o público como meio para garantir votos, mas como fim: servir para transformar vidas.
E então… A frase “Um político pensa na próxima eleição; um estadista, na próxima geração” não é um ideal abstrato: ela define a linha que separa mera sobrevivência política de verdadeiro legado.
No Bico do Papagaio – assim como em muitas regiões do Brasil –, existe material humano, potencial natural e oportunidades que têm ficado à margem porque faltou ousadia, faltou visão de longo prazo, faltou alguém disposto a colocar em primeiro lugar o progresso coletivo. Em Augustinópolis não podemos esquecer a ousadia do prefeito dr. Nilo de Melo (2004/2008) ao criar a Faculdade do bico do Papagaio (Fabic) que, mesmo que breve, deixou um legado de transformação.
Precisamos de líderes que não apenas planejem como perpetuar seu mandato, mas como perpetuar esperança, dignidade, oportunidade. A próxima geração – no Bico do Papagaio, no Tocantins, no Brasil – merece mais do que discursos: merece projetos que durem décadas, que formem competências, que transformem paisagens e vidas. Sem isso, estaremos condenados a repetir ciclos: de expectativa, estagnação, insatisfação. E isso, temos o poder de mudar.
“Aquele que acredita é forte; aquele que dúvida é fraco. Fortes convicções precedem extraordinárias ações”
*Paulo Palmares é bacharel em direito, diretor do portal Voz do Bico, empresário em Augustinópolis.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Portal Voz do Bico. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected]












