Amélio, o momento é agora

sábado, 20 de dezembro de 2025 às 12:20
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Paulo Palmares,63, é editor do portal Voz do Bico. – (Gemini_Generated)

*Por Paulo Palmares

Todo político que trilha a vida pública sonha em alcançar o topo da carreira eleitoral, seja no Legislativo ou no Executivo. No Tocantins, esse desejo não é diferente para o presidente da Assembleia Legislativa (Aleto), deputado estadual Amélio Cayres (Republicanos). E, para ele, o relógio político parece claro: ou é agora, ou talvez nunca.

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Do mais recente e grave abalo institucional vivido pelo Estado — o afastamento do governador Wanderlei Barbosa (Republicanos) por seis meses, determinado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), ficando afastado por 92 dias — ninguém saiu tão fortalecido quanto Amélio. Ao final da crise, o deputado emergiu não apenas como líder institucional, mas como figura central do tabuleiro político, carimbado nos bastidores como “homem de confiança” e “sujeito de palavra”.

Mais do que os senadores Eduardo Gomes (PL) e Dorinha Seabra (UB), Amélio detinha — e ainda detém — um poder decisivo: o de decretar o fim político de Wanderlei Barbosa. Poder esse que poderia ter sido exercido com o simples avanço de um dos seis pedidos de impeachment protocolados na Aleto durante o afastamento do governador.

Mas Amélio escolheu outro caminho.

Peitou o ambiente de pressão, articulou apoio de cerca de uma dúzia de deputados e, silenciosamente, deu o recado: “Aqui não”. Mesmo sob críticas duras, fogo cruzado político e interesses externos, impôs-se, conteve a crise e saiu maior do imbróglio.

E agora José? Ou melhor: e agora, Wanderlei?

No atual cenário político, a leitura predominante é de que apenas a senadora Dorinha Seabra permanece formalmente no páreo sucessório. Eduardo Gomes, por sua vez, já deixou claro que seu projeto é permanecer no Senado Federal. Mas, sobretudo no Bico do Papagaio e nas conversas que chegam da capital, a pergunta ecoa: qual é, de fato, o peso político de Dorinha nesse jogo?

Ela possui musculatura eleitoral suficiente para impor uma candidatura ao governo? Quem são seus verdadeiros soldados? Prefeitos das grandes cidades? Aliados circunstanciais? Em política, como se sabe, as peças se movem conforme o vento — e as conveniências do momento.

A construção do nome de Amélio começou ainda em 2024, quando rumores nos corredores do poder já indicavam o deputado biquense como possível pré-candidato ao governo em 2026. O que antes eram especulações ganhou corpo em 27 de dezembro de 2024, durante um jantar em Augustinópolis, quando o deputado federal Alexandre Guimarães (MDB) citou publicamente o nome de Amélio, sinalizando que o projeto era real. Em 2025, a articulação avançou com a anuência clara do próprio governador Wanderlei Barbosa.

Então veio 3 de setembro. E tudo ruiu.

O afastamento do governador por 180 dias levou muitos analistas a decretarem o fim político de Amélio. Sem seu principal cabo eleitoral, diziam, o projeto havia naufragado. Na Aleto, o clima era de velório — especialmente no gabinete da presidência, antes sempre movimentado. No Palácio Araguaia José Wilson Siqueira Campos, o ambiente era outro: festa, planos e um novo rei dava as ordens e desenha o ritmo político no estado.

O vice-governador Laurez Moreira, alçado judicialmente à condição de governador em exercício, montou rapidamente seu time e entrou em campo disposto a jogar pesado.

Mas Laurez não sabia quem comandava o outro lado da trincheira. Lá não estava apenas o presidente do Legislativo. Estava o amigo. O aliado. O homem que, diante de seis pedidos de impeachment, escolheu a lealdade em um ambiente onde esse valor costuma ser escasso.

O governador Wanderlei Barbosa e o deputado Amélio Cayres. – Foto: Márcio Vieira/Governo do Tocantins

Amélio saiu muito mais forte.

A decisão unânime da Segunda Turma do STF que devolveu Wanderlei Barbosa ao cargo reacendeu os discursos de bastidores, atribuindo o desfecho a uma articulação jurídico-política dos senadores Eduardo Gomes e Dorinha Seabra. Pode até haver verdade nisso. Mas nenhum ator desse processo foi tão determinante, imprescindível e moralmente relevante quanto Amélio Cayres.

É inegável: se tivesse levado adiante qualquer pedido de impeachment, com apoio parlamentar, articulação do governo interino e o histórico recente do Estado, não haveria força capaz de evitar a queda definitiva de Wanderlei — como já ocorreu no passado. Bastava repetir o roteiro.

Mas Amélio não o fez.

Com 2026 batendo à porta, resta a dúvida central: Amélio continua sendo o ungido do governador ou o óleo sagrado da sucessão escorrerá para outra cabeça?

Alguns movimentos recentes — pequenos, mas reveladores — indicam que a senadora Dorinha pode ser rifada no processo. O deputado estadual Jair Farias (UB) e o prefeito de Axixá, Dr. Auri, antes defensores ferrenhos da senadora, já não demonstram o mesmo entusiasmo. No caso de Jair Farias, a relação antes tensa com o governador mudou de tom nos últimos dias.

Sinais importam. E em política, quase sempre falam alto.

Amélio já deixou sua posição clara:

Amigo não trai amigo.

Resta saber se o governador Wanderlei Barbosa compartilha do mesmo sentimento — e, principalmente, se terá coragem de reconhecer quem, no momento mais crítico, segurou a porta fechada quando todos queriam empurrá-la.

Paulo Palmares é diretor do Portal Voz do Bico e empresário em Augustinópolis

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