* Por Fábio de Alcântara
Se há um personagem esquecidíssimo nos salões iluminados pela vaidade humana, é o homem simples – esse ilustre desconhecido –, que segue seu caminho de risos francos e olhares plácidos, carregando sobre os ombros o segredo mais antigo e subvalorizado da existência, a genuína felicidade. Não me refiro aqui ao simplório, ao ingênuo, tampouco ao resignado que se esconde da vida. Falo, sim, daquela alma habitada por um autoconhecimento desprendido, que navega ao largo do torvelinho que é o desejo desmedido de muitos.
O homem simples é, por natureza, um resistente silencioso. Vê passar diante de si as carruagens douradas da ambição política, social, econômica e religiosa, sem jamais desejar, de verdade, trocar a poeira dos próprios sapatos pelo dourado ilusório dos outros. Não é invejoso: a fortuna alheia é-lhe, quando muito, um detalhe numa paisagem que pouco lhe diz. E se porventura compra algo novo, é quase sempre pelo riso de um filho ou à necessidade de um dependente – nunca, por certo, pelo sabor amargo da ostentação.
Enquanto tantos armam barricadas contra ladrões, fiscais e demônios, ele dorme tranquilo. Sua consciência, levemente coberta pela simplicidade dos seus atos, não há de temer nem vigias, nem julgamentos, nem infernos. O fisco não lhe tira o sono: sua contabilidade é a sinceridade ordinária dos que não têm o que esconder. Os ladrões, se existirem, haveriam de rir, pois encontrarão a porta aberta, mas nada de valor a levar, exceto, talvez, a paz que têm os que sabem viver sem excesso.
Não guarda mágoas. Sobre isso, Dostoievski escreveu com reverência, os homens verdadeiramente bons – e simples – são raros como o vento quieto sobre o lago. Não desejam o que não possuem, nem se comovem ao serem preteridos. Não porque padeçam de alguma paixão menor, mas por uma fatal bem-aventurança, descobrem cedo, nos meandros anônimos da existência, que felicidade não se exibe, nem se impõe. Apenas se habita, em silêncio.
A sociedade o aponta, por vezes, como desprovido de aspiração, apático frente às oportunidades. O olhar incompreendido dos pragmáticos; esses que, por medo de perder tudo, não desfrutam coisa alguma. O homem simples é hoje vilipendiado pelos que vivem do cálculo e da preocupação, sempre inquietos com o presente e escravizados pelo futuro. Mas quem os observa com atenção percebe: o melhor da vida lhe sorri quando, por entre o trabalho infatigável e sem holofotes, ele ergue-se após um sono de pedra, renovado pelo agora, jamais pelos sonhos de um amanhã que não pertence a ninguém.
Verdadeiramente, cabe ao homem simples, esse raro bem-aventurado, a coroa invisível de uma leveza que não responde ao apelo frenético do tempo. Ele é a antítese do cidadão contemporâneo, habitante dos tormentos hodiernos, que rui à menor ventania de desespero coletivo. O homem humilde e silencioso, no entanto, levanta-se após a tempestade com o mesmo sorriso discreto; para ele, cada dia basta em seus próprios desafios e alegrias.
Feliz daquele que vê, neste tipo de vida, a beleza que as Escrituras e Cristo tanto celebraram; o espírito não abalado pelos apelos do mundo, a bondade sem cálculo, o amor que não exige troféus. Ao homem simples – esse supremo incompreendido – dedico, pois, minhas palavras: és, no fundo, o mais próximo do que chamamos de felicidade.
Ah, se pudéssemos todos nós descalçar um pouco a alma, despir-nos das armaduras da pretensão e redescobrir essa sabedoria ancestral que reside na simplicidade! Quiçá, com mais homens e mulheres de espírito assim, desarmado e genuíno, a vida se tornaria não apenas mais leve, mas intrinsecamente melhor, mais respirável, mais humana. Fica o convite à reflexão – e, quem sabe, à redescoberta desse tesouro esquecido dentro de cada um de nós.
Fábio de Alcântara, advogado












