* Por Fábio de Alcântara

Há, na vida, um homem que nos ensina, desde cedo, a temer a Deus — e o amamos pelo mesmo motivo. É uma estranha alquimia de sentimentos: temor, respeito, admiração e afeto, que se entrelaçam até se tornarem inseparáveis. A proteção, a segurança, o carinho e o sustento que sentimos no calor do lar materializam-se, antes de qualquer outra face, no pai. É ele o primeiro acidente feliz que molda nossa compreensão do amor.
Mas o temor, como toda força intensa, pode ser faca de dois gumes. Há filhos que, para não decepcionar o pai, carregam sobre os ombros culpas que não pertencem a ninguém mais. Quantos não se perderam pelo medo da desaprovação? Quantos afundaram na ruína porque não suportaram a dor de pensar que traíram aquele olhar de confiança? O pai é a figura de Deus mais próxima – e, como Deus, tantas vezes olha para o filho que errou e diz: “Eu te perdoo”. O problema é que nem sempre o filho consegue perdoar a si mesmo. Esse peso, às vezes, molda uma existência inteira.
De todos esses aspectos, e de tantos outros, nasce claro o valor insubstituível da figura paterna. E por isso preocupa – e entristece – ver como, nos tempos atuais, correntes materialistas, sob a sombra da decadência espiritual, tentam extirpar a imagem do pai da cultura. É um projeto silencioso, mas eficaz, iniciado pela ascensão da filosofia moderna e seu antropocentrismo: quando Deus é deslocado, o pai também perde seu altar simbólico. No entanto, ao sepultar a figura paterna, sepulta-se também a própria sociedade.
Meu avô, pai de meu pai, foi um desses homens que ainda sabiam que o amor exige firmeza. Criou doze filhos com bondade, disciplina e o olhar sempre voltado ao bem comum da família. Meu pai, para mim, é meu deus na terra: nunca me abandonou, apesar de todos os pecados que cometi contra ele. Manteve-me, a mim e a meus irmãos, unidos com o verdadeiro senso de origem, preservando entre nós uma comunhão espiritual rara – o reconhecimento de que pertencemos uns aos outros. Dou graças a Deus todos os dias por ainda poder olhar nos olhos dele. Sei, contudo, que meu pai já não pode ver os olhos do seu, e aquele foi, talvez, o dia mais doloroso de sua vida; perceber-se órfão daquele que, por tantos anos, sustentou seu mundo.
Penso nisso ao ouvir “Naquela Mesa”. Aquela letra é também a nossa casa sem a presença do avô: “Naquela mesa ele sentava sempre, e me dizia sempre o que é viver melhor… Naquela mesa tá faltando ele, e a saudade dele tá doendo em mim.” A cadeira vazia é mais do que ausência física – é a consciência viva de que todo amor verdadeiro um dia se torna lembrança.
“Naquela mesa ‘tá faltando ele, e a saudade dele ‘tá doendo em mim.” Que a dor da ausência nos lembre da grandeza da presença. Que a saudade nos ensine o valor do que tivemos. E que a gratidão nos mova a ser, para nossos filhos, aquilo que nossos pais foram para nós: a primeiratradução humana do amor de Deus.
Neste dia dos pais, rendamos graças. Aos presentes, que nos sustentam e nos guiam. Aos que partiram, cuja voz ainda ecoa na nossa memória. Aos que virão, para que compreendam que um pai é mais do que um laço de sangue, é um pilar espiritual, moral e afetivo sem o qual o edifício humano desmorona. Porque é na presença do pai – e também na saudade dele – que a vida nos revela seu sentido mais puro.
Fábio de Alcântara, advogado












