
*Por Paulo Palmares
Há mais de um ano, a imaginação dos que orbitam a cena política do Tocantins vem sendo alimentada por rabiscos, conjecturas e apostas sobre o cardápio eleitoral de 2026. Agora que o ano chegou, o que se vê é um cenário marcado muito mais por indefinições do que por certezas. Predominam hipóteses, especulações e análises provisórias — um caldo típico de mesa de bar, onde todo mundo opina, mas ninguém tem a receita final.
Na prática, será preciso esperar até abril para que as cores das bandeiras comecem a se definir de fato, indicando quem marchará ao lado de quem nas carreatas e comícios. Até lá, seguimos no terreno da suposição, que conforme o condimento acrescentados podem alterar o sabor ou até mesmo azedar a sopa até 15 de agosto.
Querer ser governador, quase todos querem. Do mais experiente ao mais tolo dos políticos com mandato no Tocantins, o desejo é praticamente unânime. No entanto, estar verdadeiramente cacifado para disputar o Palácio Araguaia José Wilson Siqueira Campos é privilégio de poucos. São raros os nomes que, além da ambição, dispõem de musculatura política, grupo consolidado e estrutura para entrar na ciranda com chances reais.
Entre esses nomes está a senadora Dorinha Seabra (União Brasil), apontada como preferida do senador Eduardo Gomes (PP), que, por sua vez, tem como prioridade e preocupação sua própria reeleição. No âmbito estadual, o União Brasil conta com dois deputados estaduais — Vanda Monteiro e Jair Farias, este último entusiasta declarado da candidatura da senadora. Ainda assim, não é possível garantir que ambos caminharão juntos até o fim. No plano federal, tem o deputado Gaguim, embora ainda filiado à legenda, dá sinais de que pode migrar para o Republicanos. No papel, o partido soma 37 prefeitos, 27 vice-prefeitos e 286 vereadores, números que impressionam, mas que, na política, estão longe de serem favas contadas.
Do outro lado, o Republicanos aparece ainda mais robusto. Além de abrigar o governador Wanderlei Barbosa, o partido elegeu sete deputados estaduais, dois federais — Ricardo Ayres e Antônio Andrade — e saiu das eleições municipais de 2024 como a legenda mais vitoriosa do estado: 56 prefeitos, 25 vice-prefeitos e 301 vereadores. Trata-se de um agrupamento naturalmente inclinado a permanecer coeso, amparado pela máquina governamental e pelo poder de articulação que ela proporciona.
Antes do turbulento episódio jurídico que afastou Wanderlei Barbosa do cargo por três meses, o governador atuava como verdadeiro instrutor de voo do presidente da Assembleia Legislativa, deputado Amélio Cayres, incentivando sua pretensão de aterrissar no Palácio Araguaia. Mudou alguma coisa depois disso? Ao que tudo indica, não. Embora Barbosa tenha se declarado grato aos senadores que o apoiaram e ao presidente da Aleto, nunca afirmou publicamente que a senadora Dorinha tivesse conquistado sua preferência nesse intervalo de tempo de muita apreensão, ou como como publicou a primeira dama Karynne Sotero, “três meses de deserto, silêncio, de provações, de noites longas e difíceis”.
E os gestos falam mais alto que discursos. Nos dois dias que antecederam a inauguração da ponte do Estreito, em 22 de dezembro, o governador esteve no Bico do Papagaio e se hospedou na casa de Amélio Cayres. Certamente, aquelas cerca de 48 horas não foram dedicadas a rezas ou pagamento de promessas no Santuário de Santa Rita de Cássia, em Augustinópolis. O encontro teve caráter político: traçar cenários, embaralhar cartas e calcular o momento exato de jogá-las à mesa. Ambos sabem quem pode se tornar adversário e consequentemente seus algozes a partir de 2027 — e não são ingênuos a ponto de alimentar possíveis feras.
Já o vice-governador Laurez Moreira, que comandou o estado por 92 dias, deixou o Palácio Araguaia, na avaliação de muitos analistas, politicamente menor do que entrou. Sua passagem é vista como pouco produtiva sob o ponto de vista político. Ainda assim, seu nome surge como uma possível alternativa para liderar uma frente de oposição capaz de agregar forças e, ao menos em tese, enfrentar o candidato apoiado pelo grupo governista e alguns descontes.
No campo das ambições, o deputado federal Vicentinho Júnior (PP) também não esconde o desejo de ocupar uma das cadeiras do Senado atualmente ocupadas por Eduardo Gomes e Irajá Abreu. No entanto, recentemente, tem sinalizado que pode tentar outro voo: o governo do estado. Chances existem, mas o desafio é enorme — será necessário muito trabalho para viabilizar não apenas a candidatura, mas um grupo mínimo que lhe dê sustentação. Vale lembrar que União Brasil e Progressistas agora formam a federação União Progressista (UP), o que exigirá um delicado exercício de convivência política entre Vicentinho Júnior e a senadora Dorinha.
Somam-se às incógnitas nomes como o deputado federal Alexandre Guimarães (MDB), o ex-senador Ataíde Oliveira, sempre disposto a criticar a todos em busca de espaço, o ex-governador Mauro Carlesse, que já manifestou desejo de retornar ao cargo do qual foi afastado após o início de um processo de impeachment, e o Partido dos Trabalhadores e outros espectros políticos mais à esquerda, que reconhecidamente não possuem, no Tocantins, força eleitoral suficiente para eleger um governador. Sem esquecer, claro, os aventureiros de plantão: aqueles que entram no jogo sem nada a ganhar e conscientes disso, mas que podem, ainda assim, colocar mal gosto na sopa.
No fim das contas, nada está definitivamente escrito ou registrado. Mas um fato parece incontestável: Amélio Cayres segue forte no jogo. E não apenas por méritos individuais, mas por estar inserido em um grupo político maior, mais coeso e estruturado — uma condição que, em política, costuma atrair muito mais aliados e simpatizantes do que afastá-los.
Paulo Palmares é Bacharel em direito, editor do portal Voz do Bico e empresário em Augustinópolis
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