Os Ratos Saíram dos Esgotos

quarta-feira, 20 de maio de 2020 às 14:40
O professor Valdo Rosário. – Foto: Divulgação

Parte I 

*Por Valdo Rosário Sousa

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Resumo: Este artigo é uma síntese dos conceitos de arte e cultura, fazendo uma relação com a ideologia, filosofia e a retórica sofística. Após esse excurso contextualizarei com a política educacional e cultural do atual governo. Esta discussão está correlata com a simbologia linguística da cultura e arte. O artigo está divido em três partes, esta é a primeira.

Embebecido pela transcendência dos deuses, inspirei-me a escrever sobre Os Ratos e a Cultura. Essa manifestação mais pura da essência humana, sua origem está na criatividade de seus adeptos, tanto os quê criam e os expectadores. A arte antecede a própria linguagem, a cultura, a religião e a ciência. Ela é a primeira manifestação dos desejos e da realidade da phýsis (Natureza). O Cosmo é um conjunto de formas organizadas ou aleatórias, tanto faz. São curvas, ciclos, retas, triângulos que fazem parte do arcabouço dos princípios racionais. Entretanto, também são reveladas pelos mistérios dos artistas clássicos e os artesões e poetas lá nos cafundós dos sertões esquecidos pelo poder público, a arte é livre.

Se a arte é tudo isso, então ela merece respeito do cidadão desprovido de bens materiais, conhecimento científico, mas, principalmente daqueles que são representantes do poder público, (executivo, legislativo e judiciário). A arte não pode ser uma narrativa ideológica de um determinado grupo até porque o conceito de ideologia é amplo.  Abbagnano (1998, pp. 531-533), define o conceito de ideologia de acordo alguns filósofos. Segundo Antoine-Louis Destutt, a ideologia é análise das sensações e das ideias.  Para Condilallac, é a corrente filosófica de transição do empirismo iluminista para o espiritualismo tradicionalista no século XIX. Ela passa a ser empregada como uma espécie de análise filosófica, todavia, muitas vezes como uma doutrina destituída de validade objetiva, porém, mantida para interesses claros e ocultos dos que utilizavam.

A ideologia foi fundamental no marxismo no século XIX, na luta contra a cultura “burguesa”, para Marx as crenças políticas, filosóficas, religiosas e morais dependiam das relações de produção e trabalho. Segundo Pareto, a ideologia corresponde à noção de uma teoria não-científica, ele atribui três condições para uma teoria: primeiro, um aspecto objetivo em confronto com a experiência;  segundo, aspecto subjetivo que se sustenta pela retórica na arte da persuasão; terceiro, a utilidade social, tanto para quem  a produz e quem aceita. Os experimentos praticados na ciência, não são dialéticos e muito menos ideológicos. A ciência trabalha em busca de resultados objetivos e não retóricos. Ideologia e ciência estão em dois campos diferentes, não tendo nada em comum entre si. A ciência trabalha fundamentada nos princípios racionais e experimentos; a ideologia está ligada diretamente aos sentimentos e fé. Assim é impossível definir como verdadeira e útil, uma teoria persuasiva; se faz necessário compreender as diferenças entre o mundo definido pela ciência e o da persuasão retórica. É fundamental entender essas distinções para compreender os dois conceitos.

Mannheim descreve dois sentidos da ideologia, um particular e outro universal: o primeiro,  é um conjunto de contrafações mais ou menos deliberadas dentro de uma realidade e que de certa forma contraria quem propaga. A visão de um mundo a partir de uma classe social, ligado ao mundo psicológico dos indivíduos; o segundo é a conceituação a partir da sociologia. A ideologia são ideias transcendentes que nunca se concretiza totalmente na prática, mesmo se apresentando como boa e justa. Por exemplo, a ideia de amor fraterno cristão, numa sociedade de classes desiguais se torna impossível vivenciá-lo de maneira ampla. Segundo Abbagnano, as teorias científicas de Vilfredo Pareto e Mannheim sobre ideologia, o primeiro definiu a distinção entre juízo sobre sua força retórica e sobre sua utilização social, contrapondo a teoria científica. A força da persuasão referente a uma teoria, não está presa de maneira estática a si própria, mas depende do contexto social que é utilizada; a verdade ou não-verdade de uma teoria está inserida num contexto pela força da persuasão. Portanto, a ideologia não consiste como pensavam os marxistas, que ela expressa os interesses ou as necessidades de um grupo social, nem na sua  verificabilidade  empírica ou validade e ausência objetiva. Ela é a capacidade de controlar e orientar o comportamento humano em certas situações. Quanto ao amor fraterno citado por Mannheim, não significa que ele não pode ser vivenciado numa sociedade escravista ou de governo não-democrático. O amor cristão pode ser vivido nesse meio como a maneira de diminuir a tirania.

Pode-se denominar como ideologia, toda crença como forma de controlar os comportamentos coletivos, que pode ter ou não validade objetiva. O conceito de ideologia é puramente formal, porque pode ser uma crença fundada em princípios objetivos ou não. “O que transforma uma crença em I. não é sua validade ou falta de validade, mas unicamente sua capacidade de controlar os comportamentos em determinada situação.” (ABBAGNANO, 1998, p. 533).

Então podemos dizer que a ideologia está presente em qualquer manifestação artística e que toda arte é ideológica? Sim, até porque todos os seres humanos foram, são e serão ideológicos. Antes de qualquer coisa, não restrinja o conceito de ideologia a determinados comportamentos e crenças, porque ela está presente em todas as nossas manifestações artísticas, culturais, políticas, religiosas, científicas e do senso comum.

Nessas circunstâncias, podemos discutir que é possível um mundo sem ideologia? Não. O que nos resta é entender que a ideologia não é um fim, e sim um meio para darmos sentido a nossa existência e criar motivações para fazermos ou não alguma coisa. Quanto ela ser boa ou ruim, dependerá das capacidades emocionais e cognitivas de cada um. Assim, toda ideologia que preserva a vida na phýsis só é possível ser vivida plenamente numa democracia. Qualquer outra forma de governo que censura a liberdade de expressão sempre será ameaçada e impedida de se manifestar. Assim, imperará todo tipo de segregação, de acordo com a raça, socioeconômico, cultural, artística, religiosa, e a opção sexual e política.

Portanto, a arte nunca se coadunará com os calhordas e ratos que se paramentam com o manto sagrado da áurea embutida na política que preserva a polis (cidade). Porque esses farsantes se escondem embaixo desse manto, negam a arte da política do bem governar, transformando suas ideias e práticas numa caterva, tornando-se verdadeiros mandriões das artes.

Vivemos hoje sobre a sombra da ignorância do mundo, onde reina o conceito de pós-verdade, onde o que prevalece são as crenças pessoais, negando todo conhecimento científico e até arte da própria retórica. Além de negar a ciência, isso não acontece por meio de um discurso persuasivo, alicerçado na retórica sofística, e sim numa defesa, partindo da própria imaginação, que muitas vezes desemboca no campo dos delírios lunáticos existenciais. Esse nagacionismo na ciência e política é até compreensível, não justificável. Agora, na arte, é a demonstração incondicional da ignorância humana. Onde muitas vezes o fundamental não é o que é, e sim o que se imagina que é.

“Só sei que nada sei.” (Sócrates). Uma frase pertinente para esse momento, onde muitos não reconhecem sua própria ignorância, negando, assim todas as possibilidades de conhecimento. Essa afirmação do velho filósofo grego, aparentemente, parece a incapacidade de conhecer alguma coisa, ou seja, um ser desprovido de capacidades cognitivas. Todavia, a frase representa que o primeiro passo para buscar conhecimento é reconhecer a própria ignorância, que é a ausência de conhecimento em muitas coisas. A ignorância socrática não é a incapacidade de conhecimento, e sim a possibilidade de sair do mundo sensível em busca do inteligível. Reconhecer que não sabe muitas coisas não é anticientífico. O problema é quando o indivíduo pensa que sabe, porém não sabe que não sabe. Nesse contexto anula a possibilidade de qualquer conhecimento fora do senso comum.

Os ratos saíram dos porões para proliferarem os vermes da negação do conhecimento, da cultura, da arte, da religião e da política. Estão fazendo uma nova cruzada em busca de criarem novos conceitos, partindo da negação dos princípios racionais, da dialética e da retórica sofística. Quem são os ratos? Pode ser qualquer um de nós, basta não reconhecermos nossa própria ignorância, negar ou distorcer a ciência, a cultura, a arte, os fatos históricos, falsear ou confundi conceitos. Por exemplo, imaginar que socialismo e comunismo é a mesma coisa de nazismo. Temos que entender a etimologia de um conceito, e compreender que a transformação da teoria em prática, muitas vezes, desvirtua o próprio conceito, nesse caso, o erro não é do conceito, e sim de quem utilizou para justificar práticas contrárias ao próprio conceito. […]

Valdo Rosário Sousa  é licenciado em Filosofia pela PUC-GO. Mestre em Filosofia pela UFT-TO. Professor de Filosofia no Ensino Médio na E. E. E. Médio Professora Elza Maria Corrêa Dantas, São Domingos do Araguaia/PA. 4ª URE-Marabá-SEDUC/PA.

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