Os Ratos Saíram dos Porões

quinta-feira, 11 de junho de 2020 às 14:50
O professor Valdo Rosário. – Foto: Divulgação

*Por Valdo Rosário Sousa

Quanto à atriz Regina Duarte, muitos defendem sua nomeação, justificando suas interpretações em novelas por mais de 40 anos. Aparentemente se justifica a defesa, desde que nunca tenha lido o livro X da República de Platão. Muitos irão questionar qual é a relação do livro de Platão com a Regina Duarte. O filósofo grego escreve “A República” de maneira didática, com leis e orientações para governar, a partir de uma superação do grau inferior do conhecimento para o superior.

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Platão distingue quanto formas ou graus de conhecimento, que vão do grau inferior ao superior: crença, opinião, raciocínio e intuição intelectual. Para ele, os dois primeiros graus devem ser afastados da filosofia- são conhecimentos ilusórios ou as aparências, como dos prisioneiros da caverna- e somente os dois últimos devem ser considerados válidos. O raciocínio treina e exercita nosso pensamento, preparando-o para uma purificação intelectual que lhe permitirá alcançar uma intuição das ideias ou das essências que formam a realidade ou que constituem o Ser. (CHAUÍ, 1995, p. 112).

No livro X, ele faz uma crítica referente à arte como mimese (imitação). “Sócrates- Sendo assim, a imitação está longe da verdade e, se modela todos os objetos, é porque respeita apenas a uma pequena parte de cada um, é a qual, por seu lado, não passa de uma sombra”. (SÓCRATES, 1997, p. 325). Regina Duarte sempre fez papel de imitação. Maria Lúcia (Malu Mulher), Nina, Chiquinha Gonzaga, Raquel, Helena, Viúva Porcina e tantos outros. Imitação é uma técnica que todos podem desenvolver, com mais habilidades ou com menos habilidades. Representar um personagem não significa necessariamente que o ator/atriz compreenda o contexto cultural, histórico e político dele.

O intuito do artigo não é analisar as habilidades da Regina Duarte quanto à capacidade de interpretação dela, até porque isso, necessariamente, não é prova do seu entendimento sobre cultura e arte. O objetivo é uma análise dela com relação à capacidade de gerenciamento a cultura no Brasil.

O que interessa para nós não é a capacidade de interpretação dela, e sim ela, como gestora da Secretária da Cultura, está demonstrado a sua total incapacidade psicológica e intelectual de continuar na pasta, por vários fatores: primeiro, pela incapacidade de compreender que a cultura e arte é apartidária e holística; segundo, a negação de fatos histórica, como O Golpe Militar de 1964, as mortes, torturas e exílio de muitos cidadãos brasileiro, inclusive vários artistas e intelectuais; terceiro, além de negar o golpe, ainda acha normal as mortes e torturas acontecida durante a ditadura; quarto, cantar em entrevista a  “Pra frente Brasil”, que foi composta pelo compositor Miguel Gustavo, com melodia de Raul de Souza, que foi feita para seleção brasileira na Copa do Mundo de 1970, aparentemente não tem nenhum problema, desde que ela tivesse cantado no contexto de futebolístico, que não foi o caso. Essa música foi feita para seleção brasileira, todavia, governo militar da época adotou como o hino da ditadura como um ufanismo do regime. Infelizmente, a Regina Duarte cantou a música no contexto da ditadura, e não do futebol. Por último, ela acredita na ideologia de Damares, do Beato Salú (Ernesto Araújo), Dante Montovani, Sérgio Camargo, Roberto Alvim, Olavo de Carvalho e, por último no chefe-mor da balburdia política e cultural: Bolsonaro.

Ela terminou demitida de maneira patética, agora a pasta está com o ator Mário Frias, ou seja, literalmente a cultura está mergulhada numa fria. Todavia, segundo o General Pazzuelo Ministro interino ou “desenterino” da saúde, o Brasil e especificamente norte-nordeste estão no hemisfério norte… Literalmente estamos todos numa fria. Entretanto, independente de quem for o Secretário da Cultura, a política cultural será a mesma: de que existe uma doutrinação ideológica comunista, portanto, tem que ser combatida para criar uma cultura pura.

A narrativa ideológica desse governo não segue nem a lógica aristotélica e muitas menos a retórica sofística, usada para a prática da persuasão, e sim uma ideologia fundamentada no obscurantismo e numa fé cega, como afirmara Vilfredo Pareto (1848-1923), descrito no inicio do texto. Porque o estudo aplicação da retórica exige estudo e compreensão do conceito. Segundo SOUSA (2020, p. 20), para Aristóteles, existem três espécies de retóricas, que contém um discurso com três elementos: o orador, o assunto da discussão e o ouvinte. O discurso é sempre direcionado ao ouvinte. Lembrando que o ouvinte ou é expectador ou juiz. Esse último se pronuncia ou sobre o passado ou sobre o futuro. Quem delibera numa assembleia é uma ação para o futuro. O juiz julga um fato passado, o expectador julga o talento do orador. “De sorte que é necessário que existam três gêneros de discursos retóricos: o deliberativo, o judicial e o epidíctico.” (ARISTÓTELES, Lv, I, 2012, p. 22).

Isso significa que persuadir é mais do que convencer alguém. Devido a convicção está restrita à ação, o convencimento com ausência da persuasão de nada adianta. Agora, analisando convicção e persuasão no contexto de uma adesão racional, a primeira será mais forte que a segunda: “Em contrapartida, para quem está preocupado com o caráter racional da adesão, convencer é mais do que persuadir.” (PERELMAN, 1996, p. 30). O convencimento parte de premissas lógicas e de condições existenciais que a pessoa pode acreditar e aceitá-las. Como por exemplo, alguém pode ser convencido de que anulando seu voto numa eleição é uma forma de protesto democrático contra a corrupção política.  Todavia, tempo depois, essa mesma pessoa pode ser convencida de que ao fazer esse tipo de ação, estará contribuindo para a permanência de políticos corruptos no poder.

Vê-se, portanto, que a concepção daquilo que constitui a convicção, que pode parecer baseada numa diferenciação dos meios de prova ou das faculdades postas em jogo, o é também, muitas vezes, o isolamento de certos dados dentro de um conjunto muito mais complexo. (Ibid, 1996, p, 31).

Assim, a persuasão não está presa numa universalidade, porque as pessoas são movidas por vários interesses particulares. Um discurso persuasivo que tenha êxito para um determinado auditório pode fracassar num outro. “Cada homem crê num conjunto de fatos, de verdades, que todo homem “normal” deve, segundo ele, aceitar, porque são válidos para todo ser racional.” (Ibid., p. 31).

A retórica no processo educacional ajuda a compartilhar conhecimento, discutir ideias e principalmente a capacidade de ouvir o outro numa discussão. Ela não se restringe somente a uma erística[1], mais também é uma heurística3 que sempre está à procura de descobrir algo. De acordo o filósofo Guido Calogero:

Liberdade de exprimir sua fé e de esforçar-se por converter os outros a ela, dever de deixar os outros fazerem a mesma coisa conosco e de escutá-los com a mesma boa vontade para compreender-lhes as verdades e torna-las nossas, que reclamos deles com relação às nossas99. (apud Ibid., p. 62).

A retórica é composta de um diálogo persuasivo de ideias alicerçadas na razão. Todavia, levando em conta os desejos que causam emoções e influenciam as motivações dos ouvintes para escolher um discurso persuasivo, levando em conta o dogmatismo filosófico-científico, cultural e religioso, mas tendo a capacidade de desvinculação dos mesmos, quando necessário.

Todos esses fatos narrados sobre a educação e cultura no atual governo, poderíamos imaginar que precisou de 4 anos de mandando para acontecer tudo isso. Mas não. Precisou de apenas de um ano e meio para essa confusão politico-ideológica do governo. Esses secretários, ministros, presidente serão eternizados no “panteão da pátria”, não como heróis e baluarte da política, cultura e da arte, e sim como mandriões da República.

Licenciado em Filosofia pela PUC-GO. Mestre em Filosofia pela UFT-TO. Professor de Filosofia no Ensino Médio na E. E. E. Médio Professora Elza Maria Corrêa Dantas, São Domingos do Araguaia/PA. 4ª URE-Marabá-SEDUC/PA.

 

Referências

ABBGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Trad. Alfredo Bosi, 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

ARISTÓTELS. Retórica. Trad. Manuel Alexandre Júnior, Paulo Farmhouse Alberto e Abel do Nascimento Pena. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.

CHAUÍ, Marilena de Souza. Convite à Filosofia. São Paulo. Ática, 1995.

PERELMAN, Chaïm. Tratado da Argumentação. Trad. Maria Ermantina Galvão G. Pereira.  São Paulo: Martins Fontes, 1996.

PLATÃO. A República. Trad. Enrico Corvisieri. São Paulo: Nova Cultural, 1997.

SOUSA, Valdo Rosário. O ENSINO DA RETÓRICA NUMA PERSPECTIVA SOFÍSTICA NO ENSINO MÉDIO, NA E. E. E. MÉDIO PROFESSORA ELZA MARIA CORRÊA DANTAS-SEDUC/PA., SÃO DOMINGOS DO ARAGUAIA/PA. (Dissertação

[1]Arte de combater com palavras, ou seja, vencer nas discussões. Foi cultivada na Antiguidade pelos sofistas e pela escola megárica… Platão dá um exemplo vivo do modo como essa arte era exercida em seu tempo. Os interlocutores do diálogo, os irmãos Eutidemo e Dionisodoro, divertem-se em demonstrar, p. ex., que só o ignorante pode aprender, e logo depois que só o sábio aprende; que se aprende só o que não se sabe, etc. O fundamento de semelhantes exercícios é a doutrina compartilhada… pelos sofistas e cínicos, de que o erro não é possível porque, não se podendo dizer o que não é ( que equivale a não dizer), sempre se diz o que é, logo a verdade. (ABBAGNANO, 1999, p. 340).

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