
*Por Paulo Palmares
Na política, é regra conhecida: não existe vácuo de poder. Qualquer descuido é rapidamente ocupado por quem estiver mais atento. Cochilou, o cachimbo cai; levantou, a cadeira já tem dono.
Durante meses, o deputado federal Vicentinho Alves (PP) alimentou publicamente o projeto de disputar uma vaga no Senado. Paralelamente, o governador Wanderlei Barbosa deixava evidente sua preferência ao levar o presidente da Assembleia Legislativa do Tocantins (Aleto), deputado estadual Amélio Cayres (Republicanos), em longas peregrinações pelos rincões do estado. O recado era claro: o candidato do Palácio seria o deputado do Bico do Papagaio.
Em outras frentes, forças políticas influentes defendiam o nome da senadora Dorinha Seabra (União Brasil), enquanto o vice-governador Laurez Moreira (PSD) percorria o estado vendendo seu legado administrativo à frente da Prefeitura de Gurupi, onde governou por dois mandatos (2013 a 2020). Era o jogo tradicional da política tocantinense: sem intervalo e sempre começando antes do fim da partida anterior.
Como o espaço político comporta muitos projetos até certo ponto, outros nomes também se movimentavam mirando o gabinete principal do Palácio Araguaia. Subiam e desciam ladeiras, acenando para qualquer movimento que soasse como apoio popular.
Então veio o 3 de setembro. Um terremoto político. O afastamento judicial de Wanderlei Barbosa desmontou quase tudo o que havia sido cuidadosamente arquitetado. Laurez assume o governo interinamente, monta sua equipe e passa a ser tratado como “o nome da vez”, desenhando desde cedo o caminho para outubro de 2026.
Amélio Cayres, por sua vez, recolhe-se às trincheiras da Aleto para defender o governador afastado diante de sucessivos pedidos de impeachment que foram protocolado no parlamento estadual. Nenhum prospera. O deputado se consolida como o mais fiel escudeiro de Wanderlei, embalado pela expectativa de continuar sendo o preferido. Teria feito bem? Moralmente falando e olhando sua relação de amizade com o governador, sim, vendo estritamente pela lente política é outro papo. “Amigo não trai amigo”, disse Amélio Cayres em um café da manhã em Gurupi. Não mesmo?
Já Vicentinho Júnior, percebendo que não havia espaço na engrenagem palaciana, aproxima-se de Laurez. Garimpa li uma oportunidade concreta de viabilizar seu projeto ao Senado e passa a figurar com entusiasmo no entorno palaciano e por três meses foi o sorriso mais reluzente nas fotos ao lado do governador interino.
No meio da tempestade, o nome da senadora Dorinha Seabra surge como peça-chave, ou como se ouve à boca miúda, moeda de troca para viabilizar o retorno de Wanderlei ao Palácio Araguaia. Diante do risco de atravessar mais um deserto político e perder o restante do mandato, parece ter sido esse o caminho escolhido. Como cantava Raul Seixas:
“Quando se quer entrar / Num buraco de rato / De rato você tem que transar.”
Metáforas à parte, Wanderlei reassume o governo em 5 de dezembro e encontra um cenário político de terra arrasada. Politicamente o ambiente no estado não era o mesmo. Precisa se reorganizar administrativamente, recompor seu governo e politicamente após a tormenta parece recuar do propósito com o fiel escudeiro assembleiano. O mundo já não é o mesmo — e ele provou, talvez pela primeira vez, o gosto amargo de não ter aliados sólidos em determinadas esferas de governo.
Pois bem, já se passaram quase dois meses e até agora, no entanto, não houve declaração pública do governador apontando um nome que de fato será seu ungido.
Enquanto isso, Dorinha Seabra intensifica sua presença nas redes sociais e nas agendas políticas; Amélio Cayres aparentemente acabrunhado fala pouco, mas ultimamente ficou mais visível nas redes sociais; Laurez, segundo avaliações de bastidores, sai politicamente menor do que entrou após os três meses de interinidade.
O que vemos hoje é todo mundo com a bola e a bola não está no pé de ninguém com possiblidade real de chegar ao gol.
É nesse cenário que Vicentinho Alves revê sua estratégia. O deputado federal se movimenta e identifica um vácuo de liderança: detecta no tabuleiro falta de alguém com capacidade de articulação, que soma determinação política e esteja pronto para construção de um projeto majoritário consistente que anime e demonstre confiança para o eleitorado. E decide avançar naturalmente mexendo com as peça do tabuleiro político estadual.
Experiente, forjado politicamente sob a tutela do pai, o ex-senador Vicentinho Alves, o deputado não hesita. Lança-se ao jogo. Com o nome já colocado na praça e o convite feito ao prefeito de Paraíso do Tocantins, Celso Morais, para compor a chapa como vice-governador, Vicentinho começa a abrir suas próprias veredas dando claras indicações que não retrocederá, quem quiser que o siga.
Agora, caberá a ele deixar rastros claros nesta trincheira: apresentar ideias novas, dialogar com o eleitorado e explicar o que pretende fazer caso conquiste votos suficientes para alcançar o mesmo troféu cobiçado por todos os demais — o governo do Estado do Tocantins.
E lembrado um dito popular: Quem chega primeiro bebe água limpa.
Veremos.
*Paulo Palmares é bacharel em direito, empresário e diretor responsável pelo portal Voz do Bico
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