Clima esquenta em Paraíso e delegado diz que seu gabinete foi “invadido” por 20 PMs com fuzis

quinta-feira, 20 de abril de 2017 às 21:23
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   Vídeo gravado pelo delegado Cassiano Oyama, quando PMs deixavam a delegacia

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O clima esquentou em definitivo em Paraíso, com as desavenças entre Polícia Militar e Polícia Civil. Nesta quinta-feira, 20, o titular da 2ª Delegacia da cidade, Cassiano Oyama, gravou áudio relatando que cerca de 20 policiais militares foram armados até seu gabinete para entregar ofício informando que dois de seus homens não compareceriam para prestar depoimento, como tinham sido intimados nessa quarta-feira, 19. “Minha delegacia foi invadida por cerca de 20 policiais militares, todos armados com fuzil. Invadiram a minha sala”, diz Oyama no áudio que está circulando nas redes sociais.

As divergências entre as duas forças de segurança resultam da Operação “Fructus Putres”, (Frutos Podres), da Polícia Civil e do Ministério Público Estadual (MPE). Policiais civis e um promotor fizeram busca e apreensão, com ordem judicial, nessa quarta, na residência de dois militares presos e no 8º Batalhão a PM, na cidade. A operação causou indignação nos militares, o que acirrou os ânimos.

Conforme o delegado Cassiano Oyama relatou em seu áudio, O subcomandante do 8º Batalhão, Capitão Fernando, assinou o ofício entregue a ele. O capitão, de acordo com Oyama, “exigiu” que o ofício fosse recebido, dizendo que os militares não se apresentariam para os depoimentos “não houve tempo hábil para ele compor a escala”. “Perguntei [ao capitão] por que você invadiu a minha sala? Ele me respondeu: ‘Você invadiu meu batalhão!’. E eu falei: ‘Não, estava cumprindo uma ordem judicial’”, relatou Oyama.

“Me intimidaram”, afirmou o delegado. Ele disse ter determinado que o tenente que estava ao lado do capitão Fernando saísse da sala porque portava um fuzil. “Eu não queria que ele ficasse daquele jeito. E ele falou que não recebe ordem de delegados, só recebe ordens do capitão”, disse.

Oyama disse que iria fazer o Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) por desobediência. “Filmei a saída deles. Força tática. Saíram cantando pneu, me intimidaram, me encararam. O negócio está feio aqui em Paraíso. Espero, espero que desta vez, a cúpula tome uma atitude. Porque a Polícia Civil, por cordialidade, e entendendo que realmente foi uma devassa que tinha que acontecer, calou-se. Acho que agora chega, né?”, concluiu o delegado no áudio que postado nas redes sociais.

Entenda

Conforme nota divulgada nessa quarta-feira pela Secretaria da Segurança Pública (SSP), PC e MPE cumpriram dois mandados de prisão preventiva expedidos em desfavor de policiais militares, cujos nomes ainda não foram revelados.

Além disso, afirmou a SSP, foram cumpridos mandados de busca e apreensão nas residências dos investigados e também em setores do Batalhão da Polícia Militar em Paraíso do Tocantins, onde foram localizadas e apreendidas substâncias entorpecentes, bem como outros materiais.

A SSP diz que as buscas foram acompanhadas por membros do Comando Geral e da Corregedoria da Polícia Militar, o que os militares negam.

De acordo com a secretaria, as investigações continuam em grau de sigilo, motivo pelo qual não serão divulgadas mais informações. “Após a conclusão dos trabalhos policiais, será emitida nota com o resultado das investigações”, diz a nota.

Revolta e indignação

“O clima na corporação é de total revolta, de total indignação”, afirmou ao CT um militar, que preferiu não ser identificado.

Segundo ele, o 8º Batalhão ficou com os portões fechados por quatro horas, sem que ninguém pudesse entrar ou sair. A sala da P2 foi toda revistada, bem como viaturas. “Foi uma agressão à instituição Polícia Militar”, avaliou a fonte.

A questão aí, conforme militares ouvidos, não foi o cumprimento da ordem judicial, mas a forma de execução, sem qualquer comunicação ao comando e nem o acompanhamento dele. É isso que diz também nota interna do comandante-geral da PM, coronel Glauber de Oliveira Santos, aos policiais militares. “Em primeiro lugar, não discutiremos o mérito das ações, até por que a Polícia Militar tem interesse em apurar quaisquer suspeitas referentes ao seu efetivo e sempre colaborará nesse sentido. Contudo, não concordamos e nunca concordaremos com a forma que o cumprimento dos mandados foi realizado”, ressaltou o comandante.

O comandante diz que já está tomando “providências no sentido de não permitir que ações como essas de afrontamento direto a nossa Instituição voltem a ocorrer”. “Determino e conclamo a todos que não baixem suas cabeças diante do ocorrido e que continuemos como sempre, prestando um trabalho de excelência em defesa da sociedade tocantinense”, conclui o coronel.

“Arrogância e desrespeito”?

Quem também se manifestou sobre o caso, numa dura nota, foi o ex-comandante geral da Polícia Militar do Estado e ex-comandante do 8º Batalhão de Paraíso do Tocantins, coronel Luiz Cláudio Gonçalves Benício. “A arrogância e o desrespeito com que os integrantes dos órgãos agiram na execução de suas missões contra os policiais militares foram desmedidos”, afirma o coronel.

Para ele, o 8º Batalhão “foi absurdamente invadido sem oferecer ao Comando Geral ou mesmo ao Comando da Unidade qualquer oportunidade de participar e executar a ação”. Apesar de não concordar com a forma, o militar defendeu o cumprimento de Ordem Judicial de busca e apreensão.

O coronel defendeu que “se não houver freio nessas ações desmedidas, outros fatos desagradáveis poderão advir, caso não haja consciência da cúpula da instituições ora envolvidas”. O oficial defendeu os dois PMs acusados: “Dois policiais militares de postura e comportamentos ilibados foram abusivamente presos”, ressaltou.

A Assessoria de Imprensa da PM disse que está avaliando o episódio desta quinta e a SSP afirmou que, por enquanto, não voltará a se manifestar sobre o caso.

(CLEBER TOLEDO)

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